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February, 2015

Quando é hora de procurar uma psicoterapia?

quando_e_hora_de_procurar_uma_psicoterapia__1__2015-02-27125043Artigo extraído da revista Mente e Cérebro

Pedir ajuda é um grande sinal de salubridade psíquica. Indica que você foi capaz de perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento

Christian Ingo Lenz Dunker

A vida não vem sem sofrimento e miséria. Se isso fosse suficiente para determinar a procura de ajuda seria simples: psicoterapia para todos. Não penso que seja este o caso. Há situações como dependências químicas, disposições de personalidade e sintomas específicos para os quais a maior dificuldade é procurar tratamento. Se o sintoma deixasse o sujeito pedir ajuda, “meio caminho já teria sido andado”. Nesta linha a psicoterapia só seria possível para aqueles para quem ela já não é mais necessária.

Pedir ajuda é um grande sinal de salubridade psíquica. Indica que você foi capaz de perceber e autodiagnosticar uma forma de sofrimento. Sugere também que você entende que isto não é apenas uma deficiência moral, uma insuficiência de sua educação ou uma ofensa ao seu sistema de crenças. O autodiagnóstico é parte do processo de cura. O clínico tenderá a interpretar este movimento crítico como parte de seu desejo de transformação. Antigos filósofos já diziam que era difícil suportar a ideia de ser “libertado pelo outro”, tanto porque isso indica passividade e fraqueza, quanto porque seria uma liberdade falsa, obtida por meios que não são próprios. Esta oposição entre resolver-se por si, “aceitando-se como você é”, ou pedir ajuda e ficar dependente nas “mãos do outro” deve ser superada. Como em tudo mais na vida, atravessamos problemas e nos tornamos autônomos com os outros e não sem eles. Contudo, isso não explica quando um sintoma se torna insuportável a ponto de demandar tratamento.

Os verdadeiros sintomas não se definem pelo código social de condutas desejáveis, mas por duas formas específicas de relação que mantemos com o que fazemos. Há os sintomas baseados na forma “ter que”, definidos pela coer-citividade. Exemplo. Trabalho, como todo mundo, todo dia, e me queixo ou me felicito nele. Isso pode ser um sofrimento “suportável”. No entanto outra pessoa dirá: “eu tenho que” ir trabalhar, porque se não for “algo acontecerá”, sentirei angústia extrema, serei criticado impiedosamente pelo chefe, e assim por diante. Há aqui o recobrimento de um “comportamento aceitável” (trabalho) por uma disposição patológica (coerção subjetiva a).

A segunda família de sintomas obedecem à gramática do “não posso com”. São situações que podem parecer irrelevantes, ou plenamente aceitas socialmente, mas que são vividas com sofrimento adicional. Exemplo: “não posso com baratas, com ratos, com pessoas deste ‘tipo’, com mulheres desta ‘forma’, com perdas, com ganhos” e assim por diante. O diagnóstico que autoriza um tratamento psicoterápico está mais atento a esta incidência “subjetiva” do “ter que” ou do “não posso com” do que com a norma de vida esperada para alguém ou época.

Ainda que únicos os sofrimentos são igualmente trágicos e cômicos. Eles são o que as pessoas têm de melhor e também de pior. São como obras de arte que se tornam o bem mais precioso e inarredável de alguém, são também sua religião particular, feita de ritos, mitos, orações e devoções. Quando temos um nome para o mal-estar, uma história para nosso sofrimento, os sintomas revelam-se uma maneira de dizer o que não pode ser dito por outras vias. Talvez a função do psicoterapeuta ou do psicanalista seja parecida com a de um carteiro que pega cartas embaralhadas, as cartas de nosso destino, e ajuda a entregar as que podem ser entregues, reenviar as que estão sem destinatário e cuidar daquelas que ainda não foram escritas.

http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/quando_e_hora_de_procurar_uma_psicoterapia_.html

A morte nas histórias infantis e nos contos de fada

“O fenômeno da morte e os cadáveres provocam um tremendo e genuíno medo primitivo. Não se sabe se é o medo do mal ou da morte, é a mesma coisa.” (Marie-Louise Von Franz)

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Folheando a revista Época (Ed. Globo, 02/02/15) me deparei com um artigo sobre a questão da morte nos filmes infantis. 

Uma pesquisa publicada no British Medical Journal (BMJ) comparou os desenhos infantis com os dramas criados para adultos e descobriu que cada personagem importante dos desenhos tem chance de morrer 2,5 vezes maior. E 3 vezes mais de ser assassinado. Geralmente quem morre são os pais e a ausência deles muitas vezes é a razão de ser do enredo. Algumas vezes morrem durante a história, em outras já estão mortos desde o início. Na falta da mãe, há uma madrasta substituindo-a nesse papel.

Segundo Von Franz e Jung, os contos de fadas tem relação entre nossa história individual e a história do mundo. Os contos de fadas e as lendas representam uma expressão elementar e universal de processos psíquicos inconscientes do ser humano. Expressam suas necessidades instintivas, seus valores básicos e as possibilidades criativas que podem ser atualizadas.

A narrativa dos contos trazem vários tipos de arquétipos, que são figuras ou motivos comuns a toda humanidade. Alguns desses arquétipos são a bruxa, a madrasta, o príncipe e a princesa, o pai, a mãe  e a morte.

A estrutura de um conto de fadas é composta de 4 elementos:

1. Exposição do tema e do cenário: “Era uma vez…”

2. Narrativa: Caminho a ser percorrido pelos personagens

3. Clímax ou ponto de mutação: Morte de um dos pais, Mordida da maçã, Fuga da princesa, descoberta do armário mágico etc. Pode haver vários momentos como esse na história.

4. Solução Final: momento da nova situação: Casamento, beijo de amor, heroi vence a batalha entre outros…

 Os contos e desenhos infantis podem ser boas ferramentas para tratar de nossas próprias histórias. Com crianças, podemos utilizá-los para falar sobre a morte de uma maneira simbólica.  A partir da morte dos pais a criança pode se identificar com os personagens das crianças órfãs. Os contos mobilizam as imagens internas destas crianças, criando um movimento para que suas fantasias e seus processos emocionais sejam influenciados para lidar com a situação real de conflito.

Os filmes infantis são um treino para que as crianças lidem com sentimentos e situações que ainda não estão claras para elas. Mas um dia chegará a hora de falarmos sobre a morte com as crianças. 

Aos 10 anos de idade, as crianças entenderão que a morte não tem volta. No entanto, a criança pode vivenciar a morte de um familiar ou até mesmo de um bichinho de estimação antes disso. Segundo Gunn, quando evitamos falar sobre algo que é triste, ao invés de protegermos a criança, nós nos arriscamos a deixá-la ainda mais preocupada e impedimos que nos conte como ela realmente está se sentindo. 

Conversar com a criança a respeito da morte possibilitará aos pais descobrir o que ela sabe ou não sobre o assunto e também perceber os equívocos e os medos dela. A hora certa para a conversa sobre a morte vai depender da vivência de cada família. Utilizar os contos de fadas e filmes infantis para essa conversa, pode ser um preparo para enfrentar reais momentos de tristeza quando estes acontecerem.

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Referências:

Guimarães, C. Revista Época: Coluna Paradoxos e contradições: “Ele Morreu, mamãe?”; Edição número 869; 2 de fevereiro de 2015, p. 54-55.

Gunn, A . Como criar filhos autoconfiantes. 3ª edição. São Paulo: Editora Gente, 2011.

Von Franz, ML. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulus, 1985.

Confundimos a idéia de amor

A monja Tenzin Palmo dialoga e descreve de forma bastante bonita o quanto nós, em nossas relações, confundimos a idéia de amor com apego.

Diz que talvez a maioria de nós nunca tenha amado de verdade, que a maioria dos sentimentos que temos pelos outros é apenas uma forma de apego.

Quando conhecemos alguém, primeiro projetamos nessa pessoa toda a maravilha e os sonhos que existem em nós mesmos. Na realidade começamos a nos apaixonar pela imagem que fizemos desta pessoa e não por ela realmente. Com o passar do tempo nos tornamos próximos e conhecemos de fato aquilo que o outro é. E é ai que começam os problemas.

Esperamos que o outro supra todo o bem estar e a felicidade que esperamos, como se isso fosse responsabilidade dele. Queremos que o outro nos faça feliz, esquecendo que “ser feliz” é uma condição pessoal, ou seja, que apenas nós mesmos podemos causar em nós.

Tenzin conta que a relação fica difícil quando esperamos que o outro esteja lá por nós, que nos faça pleno e seguros. Prendemos alguém achando que é esta a forma correta de demonstrar o quanto nos importamos, esquecendo que desta maneira estamos apenas mostrando o tamanho do nosso próprio medo de sofrer.

De forma simples e cativante, a monja fala sobre o nosso egoísmo e imaturidade diante de um sentimento tão completo que é o amor.

“O problema é que nós sempre confundimos a ideia de amor, com apego.

Sabe, nós imaginamos que o apego e o agarramento que temos em nossas relações demonstram que amamos, quando na verdade é apenas apego, que causa dor.

Porque quanto mais nos pegamos, mais temos medo de perder. E então, se de fato perdemos, vamos sofrer.

O apego diz: ‘Eu te amo, por isso quero que você me faça feliz’.

E o amor genuíno diz: ‘Eu te amo, então quero que você seja feliz. Se isso me incluir ótimo, se não me incluir, eu só quero que você seja feliz’.

É, portanto, um sentimento bem diferente.

Sabe, o apego é como segurar com bastante força, mas o amor genuíno é como segurar com muita gentileza, nutrindo, mas deixando que as coisas fluam. Não é ficar preso com força.

Quanto mais agarramos o outro com força, mais nós sofremos. Porém é muito difícil para as pessoas entenderem isso, por que elas pensam que quanto mais elas seguram alguém, mais isso demonstra que elas se importam com o outro.

Mas não é isso. Elas realmente estão apenas tentando prender algo porque elas têm medo de que se não for assim, elas é que acabaram se ferindo.

Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro, será certamente muito complicado.

Quer dizer que, idealmente as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas e ficarem juntas apenas para apreciarem isso no outro, em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem estar que elas não têm sozinhas. Isso gera vários problemas. E isso junto com toda a projeção que vem do romance, em que projetamos nossas idéias, ideais, desejos e fantasias românticas sobre os outros, algo que ele nunca será capaz de corresponder. Assim que começamos a conhecê-lo, reconhecemos que o outro não é príncipe encantado ou a Cinderela.

É apenas uma pessoa comum, também lutando.

E a menos que sejamos capazes de enxergá-las, gostar delas, e sentir desejo por elas, e também ter bondade amorosa e compaixão, se não, será um relacionamento muito difícil.”

Em: http://www.youtube.com/watch?v=gjV5zaGd0gA

 


 

 

Jetsunma Tenzin Palmo é uma monja no Budismo Tibetano.

Ela nasceu em Londres e aos 20 anos de idade mudou-se para a Índia para dar início a sua caminhada espiritual. Tornou-se uma das primeiras mulheres ocidentais a ser ordenada monja. Realizou a maior parte de sua prática espiritual em um pequeno monastério na cidade de Lahaul; buscando maior isolamento e melhores condições para a prática, encontrou uma caverna nas proximidades do mosteiro, onde permaneceu por mais de 12 anos, sendo que os três últimos foram em retiro restrito.

A pedido de seu Guru, Tenzin Palmo, iniciou um convento chamado Dongyu Gatsal Ling.

“Todo amor é recíproco, mesmo quando não é correspondido” (Lacan)

Reproduzo aqui um pensamento de Jacques Allain Miller, um dos maiores comentadores de Jacques Lacan.

Curioso e profundo, o pensamento abaixo nos coloca novamente a pensar que é através da relação com o outro, nos “fazemos” e nos “produzimos”.


Sobre a frase, Allain Miller, diz: “Repete-se esta frase sem compreendê-la ou compreendendo- a mal. Ela não quer dizer que é suficiente amar alguém para que ele vos ame. Isso seria absurdo. Quer dizer: ‘Se eu te amo é que tu és amável. Sou eu que amo, mas tu, tu também estás envolvido, porque há em ti alguma coisa que me faz te amar. É recíproco porque existe um vai-e-vem: o amor que tenho por ti é efeito do retorno da causa do amor que tu és para mim. Portanto, tu não estás aí à toa. Meu amor por ti não é só assunto meu, mas teu também. Meu amor diz alguma coisa de ti que talvez tu mesmo não conheças’. Isso não assegura, de forma alguma, que ao amor de um responderá o amor do outro: isso, quando isso se produz, é sempre da ordem do milagre, não é calculável por antecipação”.

Se escrevermos alguma coisa agora, é possível abafar o vento que sopra.

O que a leitura acima causa não é da ordem das palavras.

Ostra feliz não faz pérola!

Para que seguimos os nossos dias nos preocupando com o trabalho, as contas a pagar, com as metas a cumprir, com os prazos, notas, atividades, estudos? Inundados de todos os lados por cobranças, culpa, tristeza. Se não é no trabalho e na faculdade, é dor de vida, relacionamentos amorosos, escolhas da maturidade, conflitos com amigos.

Acho que a resposta para a maior parte dessas perguntas venha com a frase, como em casos de trabalho: “eu faço muito agora para que um dia fique tranquilo e livre de qualquer tipo de preocupação”, como se na adultez madura e velhice fossemos viver nossas merecidas “férias eternas”.

Tempos em que deixaria de existir – ou é nosso desejo de que deixe de existir – a correria, o vai e vem, o conflito, o stress. Há o desejo por um tempo de calmaria, sem tensão.

Se não existir nossa dor de alma, o que há afinal? Esse estado exacerbado de felicidade não há vida, somente existência.

Mas será que não é através do conflito que promovemos a transformação?

Parece que ‘esquecemos de lembrar’ que é da tensão, da dor, que surge a energia necessária para seguirmos com as tarefas da vida. A força da vida está na tensão que existe entre os opostos – dúvidas, escolhas – e que provocam dor! Não haveria de ser de outra maneira.

Já dizia lindamente Rubem Alves, a ostra que vive sua vida completamente feliz, se acomoda, existe somente e não produz nada. É aquela ostra sofrida que possui uma areia pontiaguda que a cutuca, a machuca com suas arestas e pontas, que produz a pérola.

A ostra feliz, coitada, observa a jóia feita por aquela que não se entregou ao pessimismo, por aquela de foi capaz de transformar tragédia em beleza.

Ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.

Acho que os tempos de agora são os tempos do intelecto. Tempos em que tentamos (e algumas vezes conseguimos), mensurar, medir, analisar as hipóteses e calcular para prever quase que absolutamente tudo o que conseguirmos. Tentamos explicar racionalmente o máximo de coisas possíveis.

O que é isso? Controle? Medo do desconhecido?

Encontramos a intelectualização também dentro do consultório. Por vezes temos vontade (e fazemos muitas vezes!) de devorar livros técnicos, buscando o mais rápido possível aprender e memorizar os inúmeros conceitos que existem. Para que assim que tivermos aprendido tudo, estarmos prontos para atender.

Retomando minha leitura do livro “A Voz e o Tempo – Reflexões para Jovens Terapeutas” de Roberto Gambini, pude me deparar com um exemplo pessoal do autor.

Ele conta que quando começou a fazer análise, ele queria aplicar o intelecto ao trabalho analítico. Ele achou por bem montar um fichário de símbolos por ordem alfabética. Ou seja, ele começou a organizar as palavras, começando por “Abacate”, e a colocar em cada uma das páginas quais os livros e em quais páginas ele poderia achar o significado desta fruta; com isso teria elementos suficientes para entender o simbolismo de tal palavra. Porém, ele conta que acabou desistindo da ideia por perceber que sua mente era muito mais criativa e rápida do que tal arquivamento sistemático.

Mas ele descobriu outra coisa, uma muito mais bonita e muito mais eficaz. Gambini diz que quando se está sintonizado com a compreensão do simbolismo, que o arquivo interno está lá pronto para ser usado e que ao estarmos remoendo algum sonho simbólico, aquilo que precisamos lembrar vem sozinho!  Ele diz: “O que for necessário lembrar aparecerá para que o propósito – não o esforço – de compreender o sonho se realize.” Em uma passagem, ele exemplifica:

“É preciso arejar um pouco esse arquivo e saber que essa área é fundamental para o treino do analista. Assim como o pianista tem que treinar a agilidade dos dedos, o bailarino a da musculatura dos braços e pernas, o poeta a das palavras, nós temos que treinar a compreensão. Precisamos saber ler, não academicamente, mas psiquicamente, quer dizer, você vai vendo as coisas passarem por perto e conversarem com você. E tudo isso é um treino para o ofício, para aquela hora em que o que foi assimilado tem que funcionar para se poder lidar com o sofrimento alheio, não é para acumular erudição.” (Gambini, p.88).

Acho que às vezes deveríamos ser mais humanos e menos cérebros.

Finalizo aqui, citando uma frase muito pertinente e muito famosa de C. G. Jung:

“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.”