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March, 2015

Massificação do homem: A perda da consciência do Eu

anolando as boas ideias

Lendo o livro “O Mistério da Coniunctio” de Edward F. Edinger, me deparei com a questão que Jung traz sobre a massificação do homem.

Massificação significa a não diferenciação. É ter suas próprias características suprimidas pela massa. E aí nos tornamos todos iguais, sem diferenciação.
A diferenciação significa a consciência de sua própria individualidade, de ser único, com suas histórias, suas marcas, seus complexos e suas vivências.
Edinger nos traz uma citação de Emerson que diz:”Não é a maior desgraça do mundo não ser uma unidade; não contar com o próprio caráter, não gerar aquele fruto peculiar que todo homem foi criado para carregar; mas sim, ser incluído na massa, entre centenas ou entre milhares, do partido ou da secção à qual pertencemos, e a nossa opinião ser predita geograficamente, como sendo do norte ou do sul”. (Emerson in Edinger, 2008 p.17)
E Jung coloca o mesmo em outras palavras: Se minha consciência prefere as ideias e opiniões da consciência coletiva e se identifica com elas, então os conteúdos do inconsciente coletivo são reprimidos.
É como se fôssemos absorvidos pelas opiniões e tendências da consciência coletiva e nos tornássemos o homem da massa.
Se não tivermos consciência do que é a massa e o que “sou eu” (Ego), perdemos o equilíbrio psíquico.
Assim, é de extrema importância o autoconhecimento através de um processo de análise ou psicoterapia.
A consciência e o cuidado são importantes em situações em que a massa age de forma a tirar-nos de nosso centro. Ex. Jogos de futebol (ou competições esportivas em geral), guerras, discussões ou questões políticas, religiosas e morais, no trânsito, etc.Em todo lugar onde podemos escolher um lado, perdemos a possibilidade de ser um portador de opostos. O inimigo está então, fora de nós e nos tornamos apenas uma partícula na imensa massa.
Em uma disputa, sermos vencedores o tempo todo não é bom psicologicamente, pois ficamos privados da experiência dos opostos, ou seja, da perda.
Todas as pessoas profundas conheceram a derrota. Ela faz parte de nosso desenvolvimento e nosso amadurecimento na vida e no processo de individuação.
Fonte:
Edinger, EF. O Mistério da Coniunctio. São Paulo: Paulus; 2008.
Imagem: www.filosofiahoje.com

A tristeza permitida

“Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? 

Você vai dizer ‘te anima’ e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. 

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. 

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. 

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. 

‘Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…’ Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. ‘Não quero te ver triste assim’, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. 

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.”

Crônica de Martha Medeiros

 

Seu filho precisa de terapia?

Artigo publicado na revista Crescer.

Um comportamento diferente ou uma dificuldade inesperada de seu filho, um acontecimento traumático, uma reação surpreendente: o que pensar e qual atitude tomar na hora em que bate a dúvida de procurar um psicólogo. Saiba aqui que tipo de situação, quais especialistas você vai encontrar e por que não há razão para ter preconceito ou se sentir fracassado

Quando planejamos ou temos um filho, a felicidade e a responsabilidade são tão grandes que muitas vezes nos parece uma missão impossível. Mesmo que a jornada já tenha começado. Diante de um conflito – de não conseguir que a criança saia da frente da TV até como fazê-la entender que seus pais não vão mais morar juntos –, é legítimo achar que a força de ser mãe ou ser pai vai desmoronar. Mas também legítimo é entender que pode precisar de ajuda. De alguém da família, de um educador da escola, de um amigo ou, sim, de um terapeuta. Mas quem é esse profissional? Como entender esses vários “psis” disponíveis?

Psicólogo, psicanalista, psicopedagogo e psiquiatra são alguns dos especialistas apoiadores dos pais, desde um caso de transtorno comportamental diagnosticado a uma dificuldade pontual emocional. Ah, mas antigamente não precisávamos deles, alguém pode dizer. Verdade, sabe por quê? Antes sabíamos menos sobre o que se passa na infância. “O preconceito contra esse tipo de atuação profissional está diminuindo porque temos informações melhores”, diz o pediatra Eduardo Juan Troster, coordenador da UTI Neonatal do Hospital Albert Einstein (SP). “As questões da saúde evoluíram tanto que é praticamente impossível só um profissional dar conta de um ser humano do ponto de vista clínico, orgânico, mental, emocional”, diz a psicóloga Rita Calegari, do Hospital São Camilo (SP).

Claro que não é fácil enxergar um problema no filho. Para ninguém. Qual pai ou mãe não luta todos os dias para que ele seja feliz? “Os pais têm sempre um filho imaginado, e, às vezes, não conseguem aceitar o filho real, assumir para si mesmo que ele é diferente do esperado. É difícil não se culpar, não se decepcionar ou até sentir um certo ciúme de que outra pessoa vai ajudá-lo e não você”, diz Gina Khafif Levinzon, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise. Outra dificuldade pode ser a de não querer acreditar que o filho, de fato, tem algum problema e sempre buscar uma justificativa para o comportamento dele. Aceitar a realidade não quer dizer que você falhou.

Mas quando procurar ajuda? Há dois sinais mais fortes. “Primeiro, se a criança ou adolescente tem um problema acadêmico. Não uma nota baixa, mas quando realmente se percebe que não está aprendendo. Segundo, se tem algum prejuízo de relacionamento social. Se exclui ou é excluído, é impulsivo demais, fica isolado no recreio, não tem amigos. Com a criança sofrendo, investigue”, diz o psiquiatra Gustavo Teixeira,  autor dos livros Manual Antibullying e Desatentos e Hiperativos (ambos da Ed. BestSeller). S
Juntos pela criança

Parceria e foco são fundamentais. “Não adianta ter uma série de intervenções se os pais possuem uma conduta inapropriada. Indiretamente, eles quase que passam por um processo terapêutico também”, diz o psiquiatra Paulo Germano Marmorato, coordenador do Ambulatório de Socialização, do Serviço de Psiquiatria da Infância e do Adolescente do Hospital das Clínicas (SP). “Muitos temem que a criança fique dependente da terapia. Mas, na verdade, o objetivo é justamente fazer com que ela caminhe sozinha”, afirma Gina Levinzon.

Por isso, para Marmorato, os pais precisam saber o que está acontecendo com a criança o tempo todo. “Para entenderem que tipo de proposta o profissional oferece. É um ‘o que vamos fazer para que seu filho consiga lidar melhor com o que está acontecendo’”, afirma ele, que também é psicoterapeuta. “O profissional verá primeiro os pais, perguntará sobre a concepção e o parto, os primeiros anos de vida, se teve doenças, como é a questão da alimentação, sono etc., e qual a queixa. Só depois a criança entra e, se necessário, começam as sessões”, explica Rita Calegari. Nelas, a criança vai ser submetida a testes específicos, mas ela achará que está brincando. “A gente avalia tudo, pensa nos encaminhamentos, que podem ser desde a terapia, uma consulta a um neurologista ou até fazer uma atividade física”, diz a especialista.

As alterações de comportamento da criança são mais facilmente percebidas na escola. “O diagnóstico de um problema é frequentemente feito pela professora, que tem contato quase todos os dias do ano com a criança”, afirma Troster.

Paciência e foco

Se o diagnóstico exige habilidade do profissional, o tratamento pede paciência. É bem diferente de identificar um sintoma, levar ao médico, fazer o exame no laboratório, tomar o remédio e aguardar a cura. O tempo do tratamento varia conforme o caso e o método.
Paciência, rede de assistência e informação são os ingredientes principais, não só na hora de optar por levar a criança ao terapeuta, mas para lidar com ela todos os dias. “Criança não vem com manual, todos erram e podem corrigir seus erros”, diz a psicóloga Ceres de Araújo, professora da PUC-SP. “A ideia é ajudar os pais a desenvolverem melhor a capacidade de ser pais daquela criança”, diz a psicanalista Gina Levozin.

Para cada caso, uma ação

Os sintomas e diagnósticos variam. Fundamental é o primeiro profissional a atender a criança – seja o pediatra, psiquiatra, psicólogo ou psicanalista – fazer o encaminhamento necessário. Aqui, alguns exemplos dos casos mais comuns que chegam ao consultórios

Meu marido e eu nos separamos e ainda não sabemos como fazer nosso filho, de 2 anos, entender a situação como definitiva.
Mais do que o cuidado focado na criança, a primeira boa orientação profissional deve ser digirida aos pais, que não podem perder o foco de que conjugalidade é uma coisa, e paternidade, outra. “O bom senso deve ser mantido, assim como a comunicação amistosa, com o objetivo de assegurar a saúde mental do seu filho”, diz a terapeuta Regina Glashan. É bom também não subestimar a criança, que já percebe o que está acontecendo.

Minha mãe faleceu de forma inesperada e não sei como lidar com minha filha, de 3 anos, que não para de perguntar pela avó.
A orientação para dificuldades em lidar com a morte sempre varia do grau de proximidade da pessoa que faleceu e a idade da criança. Primeiro, é preciso observar. “Às vezes a criança nem chora, mas manifesta a falta brigando o tempo todo”, diz a psicoterapeuta Maria Helena Franco. Ou, ao contrário: ela pode estar aparentemente bem, mas fazendo perguntas. “Converse com a criança com sinceridade. Tudo com limite, mas esconder sentimentos dela pode só deixá-la mais angustiada. A criança vive a tristeza, sim, e precisamos validar isso.” Em casos mais duradouros, a terapia específica do luto pode ajudar a família toda.

A timidez de meu filho de 6 anos faz com que  ele não se enturme com outras crianças e o está prejudicando na escola.
Se a timidez em excesso atrapalha o convívio social, seria interessante procurar uma ajuda psicológica. “Inicialmente se faz uma avaliação para saber quais os motivos que o levam a se sentir tão retraído, que podem ser questões familiares ou individuais”, aponta a psicanalista Gina Levozin. Para ela, esse grau de timidez pode mostrar insegurança e o trabalho é recuperar a confiança dele em si e no ambiente.

Minha filha acaba de completar 7 anos e está apresentando dificuldade com a leitura e com o básico de matemática.
Em primeiro lugar, é preciso esgotar os recursos da escola, saber que todas as possíveis intervenções já foram feitas. “Se a escola percebe que isso continua e que a criança não está acompanhando a turma pode ser hora de procurar um psicopedagogo. ‘Ir ou não bem na escola’ nesta fase tem a ver com a construção da autoestima e é fundamental mostrar a ela que pode aprender”, explica Quézia Bombonato, diretora da Associação Brasileira de Psicopedagogia.

Minha filha tem 4 anos e eu simplesmente acho que ela anda triste.
Para a psicóloga Ceres de Araújo, existem diferentes tipos de tristeza. “Uma criança pode estar doente, anêmica, apática e parecer triste. Ou demonstrar isso quando não é o centro das atenções. Ou pode até ser um sintoma de depressão.” Sim, a doença acontece com crianças pequenas e o melhor a fazer é observar se ela persiste e, nesse caso, procurar ajuda.

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E QUANDO O PROBLEMA É COM OS PAIS?
Sensíveis ao que as rodeia, as crianças podem apontar os problemas, mas não ser a fonte. Ou seja: pode não estar acontecendo nada com o filho, mas é ele quem vai revelar a dificuldade da família.
E não apenas estamos falando de casais em conflito – chegando à separação ou não –, perda de emprego de um dos pais, ou outro fator traumático no dia a dia, em que os adultos estejam “pedindo socorro”. Mas também de casos em que a questão seja a exagerada expectativa dos pais e a comparação desmedida com outras crianças. Segundo os especialistas, chegam ao consultório os mais diversos casos. “Desde separações em litígio, ou alguém deprimido, até pais muito invasivos, que exigem demais da criança e do desenvolvimento dela”, explica a psicanalista Gina Levozin.
Muitas vezes os pais procuram o especialista, mas apenas uma conversa já resolve, até com o encaminhamento deles a uma terapia em separado. “A orientação pode ser suficiente. Informação correta acalma ansiedades”, diz a psicóloga Ceres de Araújo.

http://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2015/03/seu-filho-precisa-de-terapia.html

 

Macunaíma: Símbolo da Alma de uma personalidade – por Carlos São Paulo

Artigo retirado da Revista Psique – Ciência e Vida

“Mário de Andrade descreve a trajetória do anti-heroi, malandro, desonesto, preguiçoso e irresponsável que, devido às circunstâncias traumáticas de sua origem, não consegue realizar o que Jung chamou de Processo de Individuação.”

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Caráter é uma qualidade que define alguém. É uma palavra que surgiu para definir uma marca, símbolo da alma e da personalidade. Essa palavra também explica o que apodreceu, estragou.

O que dizer daqueles que não conseguiram fazer essa marca e, se o fizeram, deixaram-se corromper?

Nossos mitos podem nos fazer compreender as tramas da natureza humana. Aquelas tramas escondidas no fundo do mato virgem, onde habita o inconsciente coletivo e nasceu Macunaíma. Mitos tanto podem impedir o desenvolvimento do ser como ainda deteriorar, quando essa marca na alma é ainda tênue e pode ser estragada.

O inconsciente coletivo faculta ao homem a construção de mitos, lendas e folclores – histórias que nunca aconteceram tal qual são contadas, como os sonhos. Trazem uma energia que nos propicia vivenciar as emoções vividas nessas histórias com outras elaborações coerentes com nossa vida e cultura.

Mário de Andrade escreveu Macunaíma, o Heroi sem nenhum caráter. Macunaíma é uma espécie de anti-heroi, malandro, desonesto, preguiçoso e irresponsável. Devido às circunstâncias traumáticas de sua origem, fica impedido de realizar o que Jung chamou de Processo de Individuação, no qual o Eu se sacrifica por algo maior e carrega uma história de respeito, dignidade e honra.

O narrador da história é um homem que foi para Lisboa depois de ouvir de um papagaio “verde de bico dourado”, que “preservava do esquecimento (…)” as frases do herói. O papagaio é uma ave de fala repetitiva e sem raciocínio. Walt Disney personificou a figura do brasileiro num papagaio desajeitado, preguiçoso e malandro, que compensa seus fracassos com fantasias megalomaníacas: O Zé Carioca.

Macunaíma era filho do medo da noite. Sua mãe, uma índia Tapanhumas, gritou ter parido uma criança feia. Não teve pai. O que viveu de nada adiantou. Capenga e mendigando comida, fica aborrecido e decide ir para o Céu, virando a constelação Ursa Maior, que brilha inutilmente.

A primeira frase do Epílogo é: “Acabou-se a história e morreu a vitória”. Por analogia, podemos dizer o Brasil, com uma ferida profunda em sua origem. A mãe índia foi “estuprada” pelo pai colonizador, que impôs a religião e o comportamento. Esse pai só buscava o prazer carnal e a riqueza que a mãe terra poderia lhe oferecer. O brasileiro “abandonado pelo pai” aprende, desde cedo, a não respeitar as regras da lei e da ordem. Não há imagem adequada para o seu espelhamento.

Nosso herói sem caráter, ao receber da cotia o caldo envenenado de aipim, afastou-se e só conseguiu livrar a cabeça. O resto do corpo que molhou ficou adulto, enquanto a cabeça continuou infantil. Essa é a metáfora do mito do herói sem caráter. Assim podemos entender que todos cresceram, mas suas cabeças permaneceram guardando a forma pouco elaborada de pensar, como por exemplo, procurar levar vantagem em tudo. Esses então se afastam do que é ser o verdadeiro herói.

O verdadeiro herói é aquele que tem caráter, ou seja, pode se revelar ao outro tal qual ele é sem a necessidade de sentir-se “bobo”, “esperto” ou “babaca”. É um homem que não pode ser subornado por dinheiro, por sexo ou pela promessa de fama. É capaz de vencer obstáculos como condicionamentos neurológicos, bioquímicos, mentais e relacionais. Tem uma cabeça adulta o suficiente para deixar o mundo conhecido de sua infância e auxiliado por um mentor, encontrar um mundo especial para viver e trazer sua experiência para o outro.

O Eu nos dá uma identidade e estabelece um elo entre a sua condição biológica, que o faz existir, como uma estrutura que imagina a si mesmo e também, supõe como está sendo visto pelo outro.

A partir da forma como se vê imaginado, monta seus mecanismos para enganar o outro e atender ao ideal dentro de um grupo social. Para não serem imaginados como “bobos”, assumem o papel de “espertos”. Por isso, estamos sempre imaginando como o outro nos imagina. E quando imerso numa sociedade em que ser esperto é corromper ou aceitar a corrupção como meio de sobrevivência, aqueles que ficam indignados serão considerados “babacas” e raramente se sentem recompensados por sua honestidade.

Denise Ramos (PhD) acredita que a corrupção seria um comportamento compensatório a um sentimento de inferioridade marcante. Nelson Rodrigues nos diz que: “o brasileiro continua sendo aquele Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. A nossa tragédia é que não temos um mínimo de autoestima.” Ninguém respeita o outro se não respeitar antes a si mesmo.

Macunaíma recebe da mãe do mato, Ci, um amuleto que o protege e dá sorte, que é a pedra Muiraquitã. Tal como a pedra filosofal, ela traz o sagrado, que nosso herói perde por ser um incapaz. Essa é uma pedra que para os alquimistas, reunia todas as diferenças para formar uma unidade.

Essa é a metáfora de nossa unidade social, que o povo brasileiro ainda precisa encontrar. Aí, existirá um só povo e uma só raça. O índio, o negro e o estudante de escola pública não precisarão de cotas. Todos terão o direito de partilhar dessa unidade, que recupera os valores perdidos da cultura brasileira, como a prioridade na educação, para a reconquista de verdadeiros heróis no papel de educadores.

 

Carlos São Paulo – Médico e Psicoterapeuta Junguiano. É diretor e fundador do Instituto Junguiano da Bahia.

Fonte: Coluna Divã Literário P. 66-67 in Revista Psique: Ciência e Vida. Número 110, Março de 2015. Editora Escala.

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Livro: Andrade, M.  Macunaíma – o heroi sem nenhum caráter. Editora Agir.