O sacrifício da escolha

“(…) O que é um sacrifício? A escolha, e nada mais, que alguém faz, sem qualquer restrição, da sua mais pura possibilidade interior, de ir implacavelmente até o fim do que tem de melhor. (…) O caminho que da interioridade conduz à grandeza passa pelo sacrifício. Frase que me atravessou de uma ponta à outra…Como um punhal…”

R.M. Rilke

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O termo sacrifício tem ligação íntima com a religiosidade. Jung utilizava a etimologia religere para a palavra religião, defendendo a religiosidade como algo inerente à psique de todo ser humano, como que instintiva, desde nossos ancestrais, até os dias de hoje. Quando ele fala de religiosidade, não se refere a um credo ou Igreja, mas sim à uma atitude religiosa como função psíquica natural.

“Religar o consciente a certos fatores poderosos do inconsciente, a fim de que sejam tomados em atenta consideração pelo ego, criar uma ponte, a possibilidade de interconexão, a função transcendente, é o sentido que a religiosidade possui na teoria Junguiana.” (Gimenez, 2009)

Um dos fatores ligados às escolhas é a renúncia ao não escolhido… temos que vivenciar o luto pelo não vivido, não experienciado. A morte, ligada à renúncia é um dos fatores que mais dificultam as escolhas de nossas vidas. A maneira como lidamos com os opostos vida e morte são grande influências no modo como escolhemos ao longo de nossa existência.

O sacrifício é então, uma transformação que ocorre por meio da perda da experiência anterior. É o movimento natural do nascer e renascer, do velho dando espaço ao novo. Em nossas vidas, o sacrifício da escolha entre vida e morte, o não ou sim, está presente no dia a dia ou nas crises, nas “encruzilhadas”. Pode estar na criança, que deve abandonar o mundo dos sonhos e aceitar o mundo consciente; na adolescência, que significa a morte da infância; na escolha de uma profissão, em que teremos que deixar todas as outras possibilidades;  nos caminhos em uma carreira já construída, aceitar ou negar propostas, demissões, mudanças; no casamento, como morte de dois seres individuais para a vida “em um”; nas viagens e o que deixamos para trás; no nascimento dos filhos entre outras situações.

Toda escolha tem aspecto transformador. Recusar a escolha é recusar o próprio potencial criativo e tornar a vida repetitiva e sem sentido, gerando sentimento de culpa e inferioridade. 

Ao encontrarmos o sentido na vida e encararmos as escolhas e consequentemente a morte, liberamos potencial criativo, canalizamos energia psíquica e ocorre o movimento. O sentimento então, é o de liberdade. E com ela, a responsabilidade.

Na liberdade, aceitamos a responsabilidade de nossas próprias vidas, assumimos as nossas escolhas e suas consequências.

 

Fonte: Gimenez, P.D. Adolescência e escolha. Um espaço ritual para a escolha profissional através do Sandplay e dos sonhos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2009.