O fazer e o feminino perdido: Uma busca por integração

Se “de médico e louco, todos temos um pouco…”  penso que todo mundo é no fundo, um pouco bruxa(o), feiticeira(o): todo mundo sabe, tem gente que já esqueceu.

Ser uma feiticeira está em misturar uma sopa, combinar uma cor, fazer um chá, anotar um recado ou o trecho de um livro, costurar uma roupa, arrumar um aparelho, trocar uma lâmpada, rearranjar  o velho móvel na nova sala.

Está relacionado a capacidade de compor e recompor elementos, a fim de transformar.

Alquimia é a arte pela qual uma coisa se transforma em outra, é a propriedade que nos torna mutáveis, adaptáveis e móveis diante da vida e do como ela se apresenta.

Em tempos em que tudo parece ao alcance de um click e tudo existe pronto na loja ou no mercado para simplesmente satisfazer desejos e necessidades, o “fazer” é alquímico.

Fazer sua própria comida, por exemplo , torna-se para algumas pessoas a descoberta de uma capacidade inusitada, mas integrativa e altamente prazerosa do ponto de vista pessoal.

Num momento em que o mundo vive tanto acerca de teorias, opiniões e aparências, a possibilidade do “fazer” e do “construir” retoma em nós nossos avós, nossos pais e de certa forma toca o senso feminino perdido.

O senso feminino que nada tem a ver com gênero e tange a respeito daquilo que em nós é capaz de criar algo novo, esperar  pelas coisas (seja gestar um filho, uma semente que se planta ou uma situação), acomodar, cuidar, conciliar, ser flexível.

De algum modo, o automatismo tecnológico de nossa época acaba por reforçar o senso masculino que também independe de gênero e diz respeito àquilo que em  nós é resolutivo, imediato,cortante e carregado de ação.

Comércios 24h, pesquisas no google, telefones e tvs cada vez mais inteligentes e independentes de qualquer esforço do ser humano, uma informação ou um contato em fração de segundos: Tudo muito funcional, resolutivo e muitas vezes útil e necessário às nossas atividades.

No entanto, estamos perdendo aos poucos a ideia de processo, de tempo, de etapas.

Crianças não sabem de onde vem ou como é feita a cadeira que se compra numa loja, ou de onde vem o ovo para além do mercado.

Cada vez mais crianças querem ser adolescentes e adolescentes querem ser adultos; não se espera mais por um presente de natal, por um programa que vai passar na tv.

Não existe tempo para dor ou para o erro: o luto e as dificuldades de aprendizagem passaram a ser medicadas. Por falta de tempo, fez-se patologia do que antes era curso da vida.

Isso deu a pais, professores,cônjuges e empregadores novos parâmetros de ser humano, onde a capacidade de “ acontecer” é mais valorizada do que a de “processar”.

Temos muitas opiniões, alguns argumentos e pouca flexibilidade, concessão ou mesmo respeito pela opinião de outro.

Não consideremos a possibilidade natural da frustração.

Diante disso, retomar o “ fazer” no sentido de construir, retoma um pouco a bruxa dentro de nós, com nossa capacidade de transformação.

Um processo alquímico feito de fora pra dentro e que retoma pelo caminho inverso o contato com esse feminino já tão massacrado. Trabalho de formiguinha em retomar o que de artesanal em nós: lidar com o trabalho, o tempo, o erro ou o acerto. Os aspectos humanos.

Em tempos difíceis, é necessário o exercício constante do meio termo: Uma semente que não tem o tempo certo para ser nutrida dentro da terra, não vive. No entanto, se a semente da terra não tem a força de brotar e aparecer ao sol, apodrece. Tudo precisa estar em integração.

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Autora:

Ana Carolina de Pinho Manzi

Psicóloga, CRP 06/91189, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 2007 e especialista em Psicopedagogia pela Unicamp em 2010. Atende adultos e crianças em psicoterapia na Clínica Luminare.  Acredita no potencial das pessoas de serem aquilo que são capazes de ser.