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Written by Ana Terra Degelo Lorenzon

Ser simplesmente humano: Pensamentos da Monja Coen

Monja Coen Sensei, fez seus votos monásticos em 1983 e desde então vive esta prática religiosa. Antes de se tornar monja, foi jornalista do Jornal da Tarde, morou na Inglaterra e em Los Angeles nos Estados Unidos. Foi neste ultimo país que iniciou sua prática. Tem uma filha que ficou aos cuidados de sua mãe, enquanto ela buscava seu caminho pelo mundo.

Mudou-se para o Japão, onde morou durante 8 anos no mosteiro feminino de Nagoya, tendo-se graduado monja especial (Tokuso), habilitada a ser professora do Darma Budista de monjes, monjas, leigos e leigas.

Coen casou-se com um monje japonês e em 1995, foram nomeados Missionários da tradição Soto Shu para o Brasil e serviram a comunidade do Templo Busshinji, na cidade de São Paulo até o ano de 2001. Se separaram e Coen passou a morar no Brasil definitivamente.

Através de seus ensinamentos, a monja tenta nos passar seu conhecimento de alma

Em entrevista para GNT em 2006, a monja nos dá alguns ensinamentos, os quais reproduzo trechos aqui:

A irritação nos torna maléfica quando ela nos controla. É diferente quando você se deixa controlar por ela. Se deixar controlar pela raiva, a raiva engole você. Mas quando você percebe, isso me incomoda, isso não está bem, isso precisa ser diferente, eu vou procurar meios não violentos de transformar.

É preciso que a gente sofra as dores do mundo, sinta as dores do mundo. A idéia é que vai ficar tudo bem, tudo zen, isso é errado. Nós temos que estar sentindo a compaixão. Isso significa que eu sinto com você, eu sinto a sua alegria, eu sinto a sua dor e por sermos iguais eu vou procurar meios de transformar. E não porque eu não sinto nada e está todo mundo sofrendo, todo mundo superior, isso não é iluminação.

O que temos que perceber é que somos perfeitos como somos e somos um processo em transformação. Havia um monge no século VII que foi da índia para a china que se chamava Bodhidharma, ele dizia “cai sete vezes, levanta-te oito”. Erro, vou tentar outra vez, fico irritado, percebo a minha irritação. E o que é a irritação? Onde é que ela começa? Ela é quente? Ela é fria? Meu coração acelera? Minha respiração muda? Há contração muscular? Então o nosso trabalho é ficar presente na emoção. Que emoção é esta? Eu, ser humano, tenho essa emoção, que bom. Nós temos inúmeros botõezinhos, e quem nos conhece as vezes mais próximo ainda é capaz de tocar com mais assertividade aquele que nos irrita e incomoda. Por que? Por que na hora que eu incomodo você, você é minha.

Nós somos seres humanos, independente se somos monges ou não somos monges. Antes de tudo, somos humanos.

(falando sobre o voto de castidade pessoal que havia feito há anos e quando conheceu um monge japonês, com o qual viria a se casar) Acho que na nossa vida, quando queremos ficar muito rígidos, muito duros, alguma coisa vem e mexe para dizer “não crie barreiras, não se feche, não se limite”. Então eu deixei aberto e nos casamos.

Monja Coen tem a tarefa que espalhar seu conhecimento, de tocar as pessoas, de tirá-las da rigidez e da monotonia do dia a dia. Você já parou para pensar em quais momentos você faz uma reflexão sobre a sua vida?

Ao ouvi-la, através de seu relato muitas vezes pessoal, percebemos que ela é humana, que é como a gente. Tem suas dores, também caiu em seus buracos, também ficou na escuridão. Recebemos um convite da vida, sermos apenas o que somos.

Coen é, antes de mais nada, simplesmente humana. Que sorte a nossa!

 

Ficou curioso?

Assista os vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=nHWmHmwuhoA

https://www.youtube.com/watch?v=y69b-Gtlh0o

 

Por:

Ana Terra Degelo Lorenzon, Psicóloga – CRP 06/108084

Síndrome do ninho vazio e Deméter: imagens de pais nos quartos desocupados de seus filhos.

Síndrome do ninho vazio é aquela fase em que os filhos saem de casa e quando a mãe, que cuidou e nutriu seus bebês fica sem saber o que fazer com a ausência deles.

São por muitos motivos para a saída dos filhos de casa, faculdade, casamento, quando vão para outro país, ou mesmo quando vão simplesmente morar sozinhos. A questão é que os pais, mas principalmente a mãe, por que é dela que vamos falar mais, perdem um relacionamento importantíssimo. A mãe foi figura maternal e além da perda da pessoa e do relacionamento, falamos também da perda de seu papel de mãe; papel este que lhe deu sentido de poder, importância e significado para sua vida.

As mulheres que mais sofrem com o ninho vazio são as visitadas pela deusa Deméter. Esta deusa é a do cereal, da colheita, da mãe. Sua vida faz muito mais sentido e é preenchida quando exerce o papel de cuidadora e nutridora, se sente feliz por estar grávida, gerar filhos e cuidar deles. Muitas vezes esse arquétipo constela em outras áreas, no trabalho, por exemplo, quando escolhe profissões ligadas a assistência, ajudar pessoas a estarem bem e a crescerem. Isso traz muita satisfação para esta deusa.

Mães sofrem muito com a ida de seus filhos para longe. Acostumadas a estar com eles, vê-los todos os dias, cuidar deles, se preocupar, saber onde estão. Muitas delas desejam um filho desde quando podem lembrar-se, ninando bonecas, sendo “mamãezinha”. A ausência desta figura que ela depositou tanta expectativa, tanto apoio, tanto amor, pode causar nela um quadro depressivo.

Quando o arquétipo da deusa Deméter chega ao seu extremo, a mãe torna-se deprimida, incapaz de agir, tudo parece triste e improdutivo. O mundo fica sem significado. Reagem de forma agitada ou apática, em ambos os casos expressa sua mágoa, pois uma fonte de significado vital foi afastada.

Um estudo muito interessante conduzido pela fotógrafa Dona Schwartz, nos retrata como ficam a casa dos pais depois que os filhos partem. Na realidade como ficam os quatros destes últimos, quando não estão mais ocupando-os. Dona reparou que ao contrário da preparação que existe para a chegada de um bebê, os pais não preparam a saída.

“Em algumas das casas, as pessoas não precisam do espaço do quarto e, por isso, simplesmente o deixam fechado e intacto. Em outras, onde o espaço faz falta, há um dilema entre aproveitá-lo ou deixá-lo guardando memórias. Já a resposta emocional de cada pai é muito variada – desde os pais que sentem algum alívio e liberdade, aos que sofrem com a partida.” (Viegas, 2014)

Algumas das fotos:

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Pam e Bill, 2 meses da partida de seu filho

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Amy e Andy, 2 anos

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Kathy e Lyonel, 8 meses

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Chris e Susan, 7 meses

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Lollie e Alan, 3 meses

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Jean, 2 anos

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Gloria e Alan, 5 anos

             A mulher tipo Deméter que sofreu a independência de seu filho, pode se tornar angustiada e deprimida. A perda de algo de valor se reflete em uma vida vazia e monótona. Como acontece em cada mitologia divina, é possível uma mudar se “acomodar” nesta fase e viver a depressão por muito tempo, mas é possível também mudar para outro padrão de mito e desenvolver-se. Algumas destas mulheres nunca se recuperam, mantendo suas vidas amargas e improdutivas.

A recuperação deste estado depressivo é possível e o crescimento o acompanha. O tempo passa. Essa mãe começa a reparar que o céu é azul, ou é tocada de compaixão por alguém, ou retoma uma atividade há muito tempo perdida. Descobre que existe energia.

A mulher volta para ela própria, cheia de vitalidade e generosidade, reunindo aquele aspecto de si mesma que estava esquecido. Emerge ai uma nova pessoa, após o período de sofrimento nasce uma mulher com maior sabedora e compreensão espiritual. Aprende que pode viver através do que quer que aconteça, sabendo que após o inverno vem a primavera e que a experiência humana e o amadurecimento seguem certos padrões.

 

Referência:

Bolen, J. S. As Deusas e a Mulher: nova psicologia das mulheres. São Paulo: Paulus, 1990.

http://www.hypeness.com.br/2014/02/sindrome-do-ninho-vazio-serie-fotografica-mostra-pais-nos-quartos-dos-filhos-que-sairam-de-casa/

A psicoterapia e o cuidado com a Alma.

 

Na mitologia grega, o sábio curador e professor Quíron é parte cavalo e parte humano, um centauro de linhagem, porém muito diferente de seus irmãos meio cavalo/meio humano selvagens e bem pouco civilizados. Ele exerceu a arte de curar e ensinar em uma caverna.

Como terapeuta, às vezes penso em mim como parte animal, sentado em minha caverna lidando com aspectos principais da existência humana, muito pouco capaz de diferenciar a cura do ensino.

O terapeuta moderno parece achar que os problemas vão até ele ou ela como desvios do padrão de normalidade e de saúde. A questão premente é recuperar uma pessoa até um ponto em que os sintomas presentes sejam removidos, como se por uma cirurgia psicológica.

Não vejo dessa forma.

As pessoas vêm até mim porque, no fundo, elas não conseguem sentir a alegria de ser quem são. Não sentem o lado positivo da vida. Elas se sentem presas em um padrão repetido que parece recuar na história. Muitas vezes estão focadas em, ou melhor, fascinadas por um sintoma como a obsessão ou paranoia ou ansiedade. De modo geral, é a natureza da vida seguir, como um rio, e não ficar presa ou parada.

Sempre que quero seguir uma linha em meu trabalho como psicoterapeuta, volto a pensar na palavra “Psicoterapia”

Ela é feita de dois termos gregos importantes: psique (alma) e terapia (tratar).

“Psicoterapia” significa “tratar a alma.” Psique não é mente ou comportamento e terapia não significa cura nem melhora. Sempre tenho em mente que meu trabalho é tratar a alma ou cuidar dela. Quando usei uma frase antiga, comum na literatura platônica, como o título de meu livro mais popular, Care of the Soul (Cuidado da Alma), simplesmente coloquei a palavra “psicoterapia” em inglês.

Penso na alma como a vida em nós que é imensuravelmente profunda.

Às vezes, é como se fosse uma primavera ou a fonte da existência, que nos faz sentir vivos e nos dá algo como uma direção e identidade. Até certo ponto, é autônoma, tendo seus próprios objetivos, desejos e intenções.

Ao analisar de forma mais profunda, você encontra temas e padrões humanos básicos, o que Platão e Jung, além de outros, chamam de “arquétipos.”

A necessidade de amor, o desejo de criar, o conforto do lar, a excitação de uma viagem – essas não são as características de uma pessoa particular. Elas são, no mínimo, possivelmente maneiras pelas quais todas as pessoas podem sentir a vida.

Quando esses padrões de arquétipos entram na vida de uma pessoa, geralmente possuem uma grande força e fascínio.

Você está feliz por estar apaixonado e não pensa em outra coisa. Você tem medo de ficar doente e da morte e, essa emoção, com seus pensamentos arraigados, dá a você sustentação. Você vislumbra certa carreira e corre atrás com paixão.

A alma é íntima, cheia de vida, vitalidade e energia. Parece querer constantemente mais vida e vitalidade e, portanto, pode ser uma ameaça para o status quo.

Quando você cuida de sua alma, pode tentar sentir o que precisa e deseja e pode descobrir que suas necessidades podem não combinar com seus próprios desejos. Nesse espírito, o poeta irlandês W. B. Yeats disse que sua poesia surgiu de uma tensão entre suas próprias ideias e aquelas de um eu contraditório que sentia dentro dele.

Vejo que, esse outro ser em nós, a alma, é mais vasto que aquilo que nossas pequenas mentes podem conter.

É forte e misterioso e, às vezes, um adversário real. Nosso trabalho é tentar conhecer a alma e cooperar com ela, entender que nossa felicidade e paz no coração dependem de uma resposta positiva e criativa a ela. A psicoterapia poderá simplesmente implicar em viver de uma maneira condizente com a alma e seus propósitos.

A alma oferece um sentido profundo e poderoso de identidade que contraria qualquer tendência a ser captada nas compreensões e valores limitados da família ou da cultura. Pede que cada um de nós nos tornemos indivíduos não tão identificados com as estruturas que nos cercam.

Essa necessidade é tão forte que a imagino no cenário familiar do renascimento: nascemos em uma vida e cultura biológicas e, então, temos que nascer novamente em nossa própria individualidade e exclusividade.

Juntamente com Sócrates, descreverei a psicoterapia como um tipo de maiêutica ou de obstetrícia. Temos que auxiliar no nascimento da alma para a vida, o que implica na chegada de uma única pessoa.

Sócrates disse: “Minha preocupação não é com o corpo, mas com a alma que está no fruto do nascimento” (Theatetus, 150 b).

 

FRUTO DO NASCIMENTO

O fruto do nascimento é exatamente o que acontece na terapia, em menor ou maior grau.

O fruto significa trabalho, mas eu o vejo mais como um processo.

Na terapia formal, você reflete de modo aberto e sério sobre o passado, sonhos, dificuldades emocionais, relacionamentos e alguns outros problemas, o material de uma vida, e os processa. Quando os olha de forma profunda e imaginativa, enxerga melhor o que deseja que nasça e o que impede o nascimento.

Para muitas pessoas, traumas precoces, problemas parentais influências infelizes de adultos e determinações ameaçadoras mantêm uma impressão duradoura e impedem o movimento da alma para a vida.

Anos atrás, li a descrição inquietante do estudioso de religião Mircea Eliade de um rito primitivo de passagem e isso ficou em mim. Pessoas jovens seriam colocadas na terra, nuas, talvez sobre um monte de folhas, durante toda a noite ou por vários dias, dentro de um contexto ritual de máscaras, tambores, pintura do corpo e dança. Então, elas eram retiradas, lavadas, vestidas, adultas agora e parte integral da comunidade.

Vejo a terapia ao longo dessas linhas.

Nascer em sua individualidade não é uma questão simples. Você precisa de uma experiência impressionante de morte e nascimento. Grande parte do tempo, um círculo real e transformador da terapia é um processo em passo a passo para renascer.

O terapeuta é o idoso responsável pelo ritual, mas ele ou ela é apenas o guia, não o curandeiro.

O ponto é organizar um renascimento efetivo, deixando a pessoa prosseguir para descobrir a vida. O terapeuta não decide que vida é melhor para a pessoa, se deve ser mais dependente ou independente, emocionalmente contido ou efusivo, se deve casar com uma pessoa diferente ou viver em outro lugar. O terapeuta não sabe o que é melhor para a pessoa, ele ou ela pode apenas auxiliar no nascimento da alma.

Acima de tudo, o terapeuta precisa de pureza da intenção, ter a capacidade de ouvir histórias de sofrimento sem responder de forma inconsciente aos próprios preconceitos.

Um terapeuta deve conhecer a si mesmo tão bem que passará adiante qualquer tentativa de envolver-se nas próprias reações comuns. Ele não assumirá o crédito por qualquer progresso e, na verdade, não pensará em função do progresso, mas somente no cuidado. O cuidado não é heroico, não chega a qualquer lugar nem tem necessidade de solucionar problemas.

Um bom terapeuta não vê a vida como um problema a ser resolvido, mas como um dom a ser observado bem de perto e incentivado.

Um terapeuta não se enganará pelas desilusões de seu paciente. Ele não será tomado por quaisquer complexos informais no paciente que tentem ludibriar o terapeuta.

Se um paciente disser “Você não me deu muita atenção hoje”, um bom terapeuta não se defenderá nem dará explicações. Ele pode simplesmente dizer “Você está certo. Estou preocupado com minha própria situação hoje. Vamos começar de novo.”

Ele não sentirá a culpa que o paciente deseja que ele sinta nem aceitará qualquer adulação que o paciente possa mostrar no caminho. As duas são armadilhas. Ele é neutro, não deseja ser afastado de seu ponto central pela necessidade neurótica de um paciente. Face a uma influência sóbria e pesada, ele poderá encontrar a neutralidade na leveza do espírito e o bom humor.

Ele poderá simplesmente sorrir, mas nunca de modo irônico.

 

SUPERANDO NOSSOS COMPLEXOS

Um bom terapeuta supera sua necessidade de ajudar.

Embora seja verdade que fazer terapia é estar em terapia – o terapeuta pode trabalhar por meio de alguns de seus próprios problemas enquanto lida com outros -, o terapeuta também é neutro em relação ao trabalho de vida.

Ele não se abala quando um paciente não responde bem às ideias e esforços do terapeuta. Ele não precisa de um paciente para se sentir melhor ou para passar o processo terapêutico da forma que acha melhor. O terapeuta entrega-se ao entusiasmo de um animal de estimação, esperando que seu paciente se torne mais independente, artístico, autoconsciente ou emocionalmente expressivo.

Essa neutralidade não é indiferente, mas uma realização no próprio opus do terapeuta, o trabalho de sua alma. Ele não se leva pelos complexos em relação a seus pacientes, o significado mais profundo da interessante noção clássica de contratransferência.

Ele não é perfeito e não está representando com seus pacientes.

Ele possui um nível incomum de autocontrole. Consegue refletir efetivamente suas próprias fidelidades, filosofias, teorias, técnicas e ideais. Desenvolveu sua própria abordagem e não está completamente identificado com certa figura na psicologia ou com uma teoria especial.

Um terapeuta também deve saber como lidar com os complexos das pessoas que ele ajuda.

Jung descreveu um complexo como uma subpersonalidade. Eu colocaria isso de forma diferente: um complexo tem um rosto. Representar um complexo é como colocar uma fantasia, embora você não saiba que a colocou. Essas personagens da psique profunda que dominam uma pessoa, como Dr. Jekyll inundando Mr. Hyde, são excepcionalmente inteligentes, convincentes e cheias de sombras.

Uma pessoa com complexo de mãe pode impressioná-lo.  À primeira vista pode ser carinhosa, pensativa e capaz de uma emoção profunda. Somente depois você verá que essa imagem, essa possessão diabólica domina a pessoa e poderá sufocar e sobrepujar outras pessoas que entram em seu domínio. Uma mãe que é atrozmente crítica com a filha pode acreditar que está fazendo o que é melhor. Outros poderão dizer que a filha é sortuda por ter uma mãe maravilhosa assim e a filha mergulha em uma confusão dolorosa.

Ela deve ser grata ou deve fugir?

O terapeuta tem que lidar com cautela com o complexo que adentra seu consultório. Ele não deve se envolver, mas esse tipo de neutralidade não é fácil de ser alcançado. Ele pode estar especialmente suscetível a certos complexos e não os vê da forma como são.

O complexo não é a melhor palavra, talvez, mas é tradicional e importante.

Um complexo é mais como uma presença poderosa que pode assumir a coesão de uma personalidade, embora, às vezes, seja apenas um desejo ou um impulso. Pode oprimir completamente uma pessoa ou pode ser meramente uma influência. Em qualquer caso, um terapeuta precisa de coragem e circunspecção para lidar com um complexo, seja no paciente ou em si próprio.

As tradições religiosas ensinam tanto essas presenças quanto a psicologia e isso pode ajudar um terapeuta a realizar um estudo sobre as religiões e observar até mesmo o papel dele tanto na parte psicológica quanto espiritual.

A religião especializa-se em rituais que nos ajudam a encontrar os complexos de maneiras altamente simbólicas. Na confissão católica tradicional, por exemplo, você reconhece os espíritos sombrios que invadem sua vida e a confissão dessas presenças leva a uma longa estrada para lidar com eles.

Pessoalmente, cultivo os poderes da intuição, habilidade em trabalhar com imagens e o conhecimento de rituais e imagens espirituais tradicionais de modo que posso estar preparado para as imagens que as pessoas utilizam ao contar histórias de vida e relatar sonhos noturnos.

Tiro partido do modelo de C. G. Jung, que estava preocupado em ser um pensador e pesquisador inteligente e racional e, ao mesmo tempo, aplicar grande esforço para empregar métodos não racionais das tradições espirituais. Ele era artesão, calígrafo, pintor e arquiteto de sua própria maneira, fazendo com que o ambiente pessoal ficasse mais próximo de sua vida interior.

 

GUIA DAS ALMAS, LÍDER DOS RITUAIS

Meus mentores – Jung, James Hillman e Rafael Lopez-Pedraza – enfatizaram o papel do mitológico Hermes no trabalho da terapia.

Jung disse que o trabalho ou o opus inicia e termina em Mercúrio (o nome romano para Hermes).

Isso significa que, nesse trabalho, você dever ter imaginação, ser inteligente, perspicaz e hábil com a linguagem. Deve apreciar paradoxos e opostos aparentes. Deve ver o passado por meio de qualquer material apresentado e deve ir além da noção moderna do especialista bem educado e treinado. Precisa de uma apreciação profunda e investigativa para os meandros da psique e sua preparação deve ser tanto escolar quanto pessoal.

Possuo uma apreciação profunda pelo trabalho dos terapeutas e honro e apoio qualquer terapeuta que encontrar. Eles têm um papel importante na vida moderna, pois lidam com questões da alma e do espírito. De certa forma, são o sacerdote, sacerdotisa, guia moderno das almas e líderes do ritual. O trabalho deles é desafiador para todos devido à sua profundidade e ao mistério, mas é igual e precisamente recompensador, pois vai mais fundo.

Contudo, alguns terapeutas cometem um erro ao pensar na posição deles como aquela de uma pessoa treinada que dá conselhos ou ajuda a ajustar e uniformizar a vida. Alguns terapeutas cometem um erro ao verem a profissão como conselheiros profissionais ou orientadores para auxiliar em como levar uma vida tranquila.

Na verdade o trabalho deles é ter coragem suficiente para encarar os demônios de seus pacientes e lidar com os complicados mistérios da vida humana. Para realizar seu trabalho com eficiência, eles precisam conhecer profundamente a psicologia, a filosofia, o pensamento religioso sólido e a arte. Eles devem estar em casa com sonhos e fantasias extraordinárias. Devem ser capazes de ver através da agressão e do masoquismo para vislumbrar os mistérios positivos de tentar se expressar e viver.

Esse tipo de terapeuta pensa profundamente nos mistérios da personalidade humana e não os diminui até simples padrões.

Durante toda a vida e carreira, esse terapeuta continua a explorar questões complexas, valorizando quaisquer recursos que ajudem, e encara seus próprios complexos.

Ele sempre está no limite, como Hermes, entre o interno e o externo, o pessoal e o universal, a vida comum e a sagrada, e as superfícies e as profundezas.

É como uma xamã, capaz de atravessar níveis da realidade e da experiência. Ele se adapta à natureza misteriosa de seu trabalho ao fazer de si uma pessoa misteriosa, não muito fácil de ler e confortável em ser neutro face à paixão de outra pessoa.

O terapeuta Quíron trabalha em uma caverna, um local afastado do caminho normal de enxergar as coisas. Ele precisa muito do animal que há nele para sentir as muitas mensagens de seu paciente e que vêm de dentro dele. Ele deve assumir as dimensões míticas de um centauro, porque trabalhar com a alma também é demais para a mente humana.

O terapeuta deseja ser maior que a vida e quase que não um humano, uma pessoa de grande imaginação, capaz de reter quase toda manifestação de esforço humano.

Ele deve ser capaz de honrar a vida natural que flui de si e de seus clientes, e responder com eficiência aos grandes mistérios que apenas as melhores formas de arte e de religião foram capazes de compreender. Ele é uma pessoa capaz de conter as grandes alegrias e tristezas que visitam a vida de todos os humanos.

E tudo isso é uma pessoa comum, humilde no melhor sentido, apaixonado pela vida e capaz de amar aqueles que estão em perigo. É um chamado maravilhoso e uma graça para aqueles que aceitam.

 

Thomas Moore, PhD é o autor do famoso best-seller Care of the Soul e de outros quinze livros sobre aprofundamento da espiritualidade e cultivo da alma em todos os aspectos da vida. Ele é monge, músico, professor universitário e psicoterapeuta, e, atualmente, faz muitas palestras sobre a medicina holística, espiritualidade, psicoterapia e artes.

 

Disponível em: http://academiadopsicologo.com.br/portal/a-psicoterapia-e-o-cuidado-com-a-alma/?utm_source=FacePE-Art&utm_medium=facebook&utm_campaign=ConteudoGratuito

Tornando sua casa um lar: Encontro com o mito da deusa Héstia.

Héstia (conhecida como Vesta na mitologia Romana), é filha primogênita de Réia e Crono. Segundo a mitologia grega, Crono engoliu seus filhos por medo de ser superado por eles, Héstia foi a primeira a entrar nas entranhas do pai e a ultima a sair, permaneceu na escuridão e nas opressivas vísceras de Crono, sendo a única a ficar lá sozinha.

É difícil dizer que Héstia teve uma infância feliz. Com o pai tirano e a mãe ineficaz e sem poder, ela foi forte para lutar e vencer com os meios que podia. Mulheres tipo Héstia passam por situações parecidas, sendo criadas em lares conflituosos. É provável, contudo, que filhas do tipo Héstia, se retraiam emocionalmente e se retirem para seu próprio intimo, confortando a si mesma em meio a uma vida familiar penosa. Pode agir de modo diferente de toda a família, ela tenta não ser notada e tem uma passividade exterior e um sentimento interior que com certeza é diferente daqueles que a cercam. É discreta em todas as situações e cultiva a solidão mesmo quando em grupo.

Essa é a deusa da lareira, do fogo que queima na lareira. É representada pela chama viva dentro do lar, do templo e da cidade. Sua personalidade é de natureza subjetiva e interior (bem diferente de suas irmãs, Ártemis e Atena, que colocam a energia para fora, realizando coisas). Seu trabalho e ocupação são, quase sempre dentro de casa, cuidando do lar; não por que a obrigaram para que fosse assim, mas por que ela prefere e se sente mais completa desta maneira.

As mulheres que estão sendo influenciadas pelo arquétipo da deusa adquirem um sentimento de harmonia interior conforme executam as tarefas domésticas, realizando-as de modo calmo e pacífico, com pouca preocupação com o tempo. Ela faz as tarefas do lar, pois estas realmente lhe importam e porque lhe agrada fazê-las. Sente-se bem interiormente quando as finaliza.

Ela vive porém, no anonimato. Aceita ser modesta, seu trabalho por ser no lar, não é valorizado por todos e frequentemente seus sentimentos não são levados em consideração. Muitos casamentos bem sucedidos se dão com homens tipo Hermes, aquele homem de negócios-viajante-transmissor-empresário, agilmente negociando no mercado, enquanto sua esposa mantém aceso o fogo do lar. E muitas vezes esse arranjo funciona para ambos. Ela gosta da autonomia para decidir o que será feito no lar e o amparo econômico que ele lhe dá permite tempo e espaço para fazer o que lhe importa. Porém, se esse amparo não existe, Héstia ficará em desvantagem, não tem ambição e nem é movida por causas políticas. Ela não está pelo mundo afora deixando pegadas, e nem se preocupa com isso. Deste modo, ela não é notada ou é desvalorizada pelos que não conseguem medir os atributos “socialmente aceitos” externos, e nesta vão achar que ela não os possui.

Claro que, para vivermos de modo mais inteiriço, todas as deusas nos deveriam visitar. As características mais valorizadas e esperadas para se viver hoje, não são características da deusa em questão: empreendedorismo, espírito de equipe, agilidade nos negócios, habilidade de relacionamento, etc. Mas me parece que ela tem seu lado interno bastante equilibrado, sendo uma em si mesma, sentindo-se realizada pelo trabalho que desempenha, tendo espírito autônomo e reflexivo.

Penso que todas as mulheres deveriam ser visitadas por Héstia mais vezes; essa deusa é um “ponto tranquilo” em meio a agitação que passamos no dia a dia. Héstia fornece o ponto de referência que permite a mulher permanecer firme diante da confusão, desordem ou afobação, com ela a vida adquire um significado. Héstia não liga para posses, prestígio ou poder, sente-se completa como é e dá importância interna as atividades do lar que gosta de realizar. Imagine se pudermos nos “desintoxicar” das lutas por ser o primeiro ou o mais bem sucedido e pudéssemos simplesmente nos ligar aquilo que tem um significado individual em nós, sem gastar energia e preocupação com o que os outros vão pensar ou achar?

Para fazer isso, precisamos convidar Héstia a tomar parte das tarefas diárias da casa, ou seja, depois de decidir qual tarefa fazer, dedicar tempo para ela. Por exemplo, dedicar-se as tarefas domésticas é tarefa exaustiva demais para algumas de nós, porém se adotar o modo de fazer da deusa, a mulher pode dar boas-vindas à oportunidade de dobrar roupas, lavar louça, decorar enquanto esvazia e aquieta sua mente.

Obter um espaço meditativo dentro de seu próprio lar é um presente que Héstia nos proporciona. Apropriar-se de sua casa. De seu lar. De seu meio. De sua vida.

Referência: Bolen, J. S. As Deusas e a Mulher: nova psicologia das mulheres. São Paulo: Paulus, 1990. 

 

(Ana Terra Degelo Lorenzon)

A insatisfação necessária

O autor Mário Quintana diz que ” A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal…

Quando se vê, já terminou o ano…”

Durante a vida fazemos planos, criamos metas e, no entanto, quando tudo é alcançado já desejamos outra coisa e aquele que era o objetivo último, volta para o início da fila porque o objetivo final agora tornou-se outro.

A vida é movimento e é somente a meta o que nos move: é a beleza daquilo que prevemos a frente que nos enche de energia para chegar até lá, imaginar o resultado de uma obra é que nos põe em ação para realiza-la.

Dizem que é caminhando que se faz o caminho: buscamos por felicidade, amor, realização, prosperidade, tempo- queremos que sexta feira chegue logo, reclamamos porque já é domingo!

A ideia plena de felicidade, paz, ou realização, no entanto é ampla e subjetiva porque tem um nuance diferente para cada pessoa e a torna inalcançável. Por não ter um fim, é justamente a dinâmica do alcançar o inalcançável que nos põe na atividade necessária ao curso da vida, onde aquilo que muitas vezes alcançamos são pedacinhos daquilo que tínhamos como objeto final.

Em outras palavras, “ser feliz” ou “ter paz ” pode ser um estado que experimentamos dentro do processo que é justamente o caminhar em busca da “paz ” e da “felicidade”, de fato parece que a vida se passa enquanto pensamos em como podemos vive-la.

Se por um lado perdemos a oportunidade de contemplar as experiências do caminho porque pensamos na chegada, traçar o destino e recalcular a rota é necessário.

 

É sabido que o animal satisfeito, dorme.  O homem satisfeito, adoece ou já morreu.

A insatisfação faz-se necessária a dinâmica, eis a beleza da movimentação que mantém a vida!

 

(Ana Carolina de Pinho Manzi)

O fazer e o feminino perdido: Uma busca por integração

Se “de médico e louco, todos temos um pouco…”  penso que todo mundo é no fundo, um pouco bruxa(o), feiticeira(o): todo mundo sabe, tem gente que já esqueceu.

Ser uma feiticeira está em misturar uma sopa, combinar uma cor, fazer um chá, anotar um recado ou o trecho de um livro, costurar uma roupa, arrumar um aparelho, trocar uma lâmpada, rearranjar  o velho móvel na nova sala.

Está relacionado a capacidade de compor e recompor elementos, a fim de transformar.

Alquimia é a arte pela qual uma coisa se transforma em outra, é a propriedade que nos torna mutáveis, adaptáveis e móveis diante da vida e do como ela se apresenta.

Em tempos em que tudo parece ao alcance de um click e tudo existe pronto na loja ou no mercado para simplesmente satisfazer desejos e necessidades, o “fazer” é alquímico.

Fazer sua própria comida, por exemplo , torna-se para algumas pessoas a descoberta de uma capacidade inusitada, mas integrativa e altamente prazerosa do ponto de vista pessoal.

Num momento em que o mundo vive tanto acerca de teorias, opiniões e aparências, a possibilidade do “fazer” e do “construir” retoma em nós nossos avós, nossos pais e de certa forma toca o senso feminino perdido.

O senso feminino que nada tem a ver com gênero e tange a respeito daquilo que em nós é capaz de criar algo novo, esperar  pelas coisas (seja gestar um filho, uma semente que se planta ou uma situação), acomodar, cuidar, conciliar, ser flexível.

De algum modo, o automatismo tecnológico de nossa época acaba por reforçar o senso masculino que também independe de gênero e diz respeito àquilo que em  nós é resolutivo, imediato,cortante e carregado de ação.

Comércios 24h, pesquisas no google, telefones e tvs cada vez mais inteligentes e independentes de qualquer esforço do ser humano, uma informação ou um contato em fração de segundos: Tudo muito funcional, resolutivo e muitas vezes útil e necessário às nossas atividades.

No entanto, estamos perdendo aos poucos a ideia de processo, de tempo, de etapas.

Crianças não sabem de onde vem ou como é feita a cadeira que se compra numa loja, ou de onde vem o ovo para além do mercado.

Cada vez mais crianças querem ser adolescentes e adolescentes querem ser adultos; não se espera mais por um presente de natal, por um programa que vai passar na tv.

Não existe tempo para dor ou para o erro: o luto e as dificuldades de aprendizagem passaram a ser medicadas. Por falta de tempo, fez-se patologia do que antes era curso da vida.

Isso deu a pais, professores,cônjuges e empregadores novos parâmetros de ser humano, onde a capacidade de “ acontecer” é mais valorizada do que a de “processar”.

Temos muitas opiniões, alguns argumentos e pouca flexibilidade, concessão ou mesmo respeito pela opinião de outro.

Não consideremos a possibilidade natural da frustração.

Diante disso, retomar o “ fazer” no sentido de construir, retoma um pouco a bruxa dentro de nós, com nossa capacidade de transformação.

Um processo alquímico feito de fora pra dentro e que retoma pelo caminho inverso o contato com esse feminino já tão massacrado. Trabalho de formiguinha em retomar o que de artesanal em nós: lidar com o trabalho, o tempo, o erro ou o acerto. Os aspectos humanos.

Em tempos difíceis, é necessário o exercício constante do meio termo: Uma semente que não tem o tempo certo para ser nutrida dentro da terra, não vive. No entanto, se a semente da terra não tem a força de brotar e aparecer ao sol, apodrece. Tudo precisa estar em integração.

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Autora:

Ana Carolina de Pinho Manzi

Psicóloga, CRP 06/91189, formada pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 2007 e especialista em Psicopedagogia pela Unicamp em 2010. Atende adultos e crianças em psicoterapia na Clínica Luminare.  Acredita no potencial das pessoas de serem aquilo que são capazes de ser.

Caminho pela rua. Há um buraco fundo na calçada. Eu caio dentro dele.

AUTO-BIOGRAFIA EM CINCO PEQUENOS CAPÍTULOS

I

Caminho pela rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Eu caio dentro dele.

Estou perdido… Estou indefeso

Não é minha culpa.

É preciso a eternidade para conseguir sair.

II

Caminho pela rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Finjo que não vejo.

Caio dentro dele de novo.

Não consigo acreditar que estou neste mesmo lugar.

Mas não é minha culpa.

Ainda é preciso um longo tempo para conseguir sair.

III

Caminho pela mesma rua.

Há um buraco na calçada.

Eu vejo que ele está lá.

Ainda caio dentro dele… É um hábito… mas,

meus olhos estão abertos.

Eu sei onde estou.

É minha culpa.

Saio imediatamente.

IV

Caminho pela mesma rua.

Há um buraco fundo na calçada.

Dou a volta ao redor dele.

V

Caminho por outra rua.

….

Caímos tantas vezes em tantos buracos, não é?

Qual é o seu?

….

 

Em: HOLLIS, JAMES A Passagem do Meio – da miséria ao significado da meia-idade. São Paulo: Paulus, 1995.

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Ode à frustração em tempos de Whatsapp

Vejo com frequência lembranças banhadas de nostalgia dos tempos que se foram. São imagens e listas de coisas que nos remetem ao passado: “10 itens para você se sentir velho”, “12 coisas que você brincava e que as crianças de hoje em dia nem sabem que existe”, entre outros.

Estamos com saudades!

No ano 2000, por exemplo, uma das maiores emoções foi ver o cabelo da Carolina Dieckman sendo raspado em cena na novela. Provavelmente, você assistiu junto com toda a sua família pelo canal da TV aberta, na única televisão que existia na casa. E aquilo tomou proporções enormes, pois a vizinha tinha que sair da sua casa e caminhar até a casa ao lado para poder fofocar sobre a tal cena. Na escola, na hora do intervalo, meninos e meninas contavam e recontavam a história do tal cabelo. Algumas garotas até pensavam em fazer igual! (Mas nossa! Mamãe nunca ia deixar…).

Se fosse hoje, seu whatsapp estaria cheio de piadinhas e vídeos que seus amigos mandaram, sobre o “novo corte de cabelo tendência” que passou na novela das 9, seriam enchentes nos seus grupos:  da faculdade, da família, academia, poker, mais amigas de todas, best friends, colegas do curso de esoterismo, grupo do bar, do trabalho de escola, do escritório (que seria subdividido em dois, equipe grande e equipe pequena, este ultimo sem o chefe – para poder falar mal dele, né?). Isso sem contar o facebook, lotado de compartilhamentos, nos convites “Reunião e estudo de caso sobre o corte de cabelo da Carolina Dieckman – Pensamentos, opiniões e pontos de vista”.

Você estaria inundado de informação, desinformação, teorias da conspiração e relatos. Saberia de absolutamente tudo o que aconteceu; antes, durante e depois da cena gravada. Estamos vivendo tempos de extremo acúmulo de informações e o pior, estamos achando que temos que dar conta de todas elas!

Estamos sendo esmagados pela quantidade de exigência e cobrança que estão caindo sobre nós todos os dias. O meu convite aqui é para parar e tentarmos refletir sobre tamanha requisição que estamos fazendo ao nosso eu.

O poema abaixo nos coloca em contato direto com essa reflexão. Este é de Wilson Mateos.

Ode à Frustração

Trabalhe muito mas tenha qualidade de vida.
Trabalhe muito mas leia jornais e revistas.
Trabalhe muito mas leia livros, veja TV e assista os bons filmes.
Trabalhe muito mas assista aos virais “geniais” que seus amigos compartilham.
Trabalhe muito mas se atualize sobre seus clientes, os concorrentes e o mercado.
Trabalhe muito mas estude inglês e mais uma terceira língua à sua escolha.
Trabalhe muito mas vá a academia.
Trabalhe muito mas se espiritualize.
Trabalhe muito mas tenha um tempo pra você.
Trabalhe muito mas tenha tempo para os amigos.
Trabalhe muito mas seja um pai presente e um marido carinhoso.
Trabalhe muito mas tenha um hobbie e toque um instrumento musical.
Trabalhe muito mas cultive hábitos saudáveis.
Trabalhe muito mas participe da vida cultural da cidade.
Trabalhe muito mas faça network.
Trabalhe muito mas esteja por dentro as últimas tecnologias.
Trabalhe muito mas não viva só para o trabalho.

Trabalhe muito mas socialize.
Trabalhe muito, socialize mas dê atenção ao seu cônjuge.
Trabalhe muito, socialize, dê atenção ao cônjuge mas durma ao menos 8 horas.
Trabalhe muito, socialize, dê atenção ao cônjuge, durma 8 horas e acorde cedo para treinar.
Portanto, Socialize mas não beba muito, porque no dia seguinte você acorda cedo para treinar.

Socialize mas não coma bobagens para não atrapalhar o sono nem o treino.
Socialize mas dê atenção aos seus filhos. Afinal, você já trabalha muito.
Socialize: tenha um tempo só seu.
Socialize: tenha um tempo só seu, mas sem excluir seu cônjuge.
Socialize: tenha um tempo só seu, mas depois compense com seu cônjuge.
Socialize também com os amigos do cônjuge.
Socialize e depois socializes denovo com quem você não socializou dessa vez.
Socialize muito mas não vire bon-vivant. Tem que trabalhar muito. E treinar.

Treine sério mas não seja escravo do corpo.
Treine sério mas não seja radical na dieta. Tem que socializar.
Treine sério mas não abra mão de se divertir. E acorde cedo.

Seja viajado tendo apenas 1 mês de férias ao ano.
Seja magro mas beba e coma pra socializar .
Seja sincero e verdadeiro, mas faça network.
Seja sincero e verdadeiro, mas não magoe ninguém.

Pense em você mas não seja egoísta.
Pense nos outros mas não se esqueça de você.
Faça tudo mas faça só o que te faz feliz.

E mais:

Trabalhe muito, socialize, treine sério, seja magro, seja viajado, seja sincero, pense em você sem deixar de pensar nos outros, e esteja antenado nos acontecimentos dos anos 2000. Você se lembra da Carolina Dieckman?

A tristeza permitida

“Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? 

Você vai dizer ‘te anima’ e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. 

Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. 

A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. 

Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. 

‘Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down…’ Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. ‘Não quero te ver triste assim’, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. 

Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.”

Crônica de Martha Medeiros