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Quem foi temperar o choro e acabou salgando o pranto? Poema de Leandro Gomes de Barros

            Ariano Suassuna, nesta entrevista fala sobre o “problema filosófico mais grave da humanidade”, ele acredita que o problema do mal e do sofrimento humano é o tema que mais gera discussão e questionamento profundo em nós.

            É perguntado a Suassuna: “Você acredita em Deus?” e, ele mais do que prontamente, responde que sim. Pois caso não acreditasse, a vida não teria sentido diante de tanta dificuldade e amarguez do mundo.

            Cita o poema de Leandro Gomes de Barros, que para ele formula uma pergunta muito séria acerca de Deus e do sofrimento dos homens, caso se encontrasse com Ele.

            Diante dos poucos minutos de fala do poeta, fiz a pergunta do poema a mim. O que você diria caso se encontrasse com Deus?

O poema:

Se eu conversasse com Deus

Iria lhe perguntar:
Por que é que sofremos tanto
Quando viemos pra cá?
Que dívida é essa
Que a gente tem que morrer pra pagar?
Perguntaria também
Como é que ele é feito
Que não dorme, que não come
E assim vive satisfeito.
Por que foi que ele não fez
A gente do mesmo jeito?
Por que existem uns felizes
E outros que sofrem tanto?
Nascemos do mesmo jeito,
Moramos no mesmo canto.
Quem foi temperar o choro
E acabou salgando o pranto?”

A entrevista:

 

Referências:

http://www.pensarcontemporaneo.com/ariano-suassuna-declama-quem-foi-temperar-o-choro-e-acabou-salgando-o-pranto/

https://www.youtube.com/watch?v=Beq961fusnk

Auto-responsabilidade pela bagunça: o bem e o mal em mim.

Uma das grandes conquistas do mundo infantil é aprender a dizer não. Antes, ainda bebês, não tínhamos essa consciência. Nossos pais nos levavam para onde queriam, colocavam as roupas que queriam e nos alimentavam da maneira que queriam. Vamos crescendo e ao nos tornarmos adultos, aprendendo a negar aquilo que não nos agrada, separamos aquilo que gostamos e queremos para nós, daquilo que queremos manter longe.

Parte desse processo faz com que o indivíduo se identifique com um lado e deixe o outro de lado, é importante que essa identificação seja com o lado bom, mas falaremos disso daqui a pouco. O que quero dizer é que a partir dessa separação, uma sombra vai sendo criada, um lugar depositário daquilo que nós não identificamos como nosso. Vemo-nos como apenas sob um aspecto e todo o resto está fora de mim.

Ao longo do desenvolvimento psíquico, essa sombra, que antes era identificada como algo fora de nós, passa a se aproximar e ser encontrada em uma realidade interna e acabamos confrontados pelo problema dos opostos.

Talvez a primeira grande e crucial divisão venha dos opostos bem e mal. É de muita importância que o lado do bem tenha um peso maior para nós do que o lado do mau. Para nossa sobrevivência e a sobrevivência do nosso ego, o bem precisa ocupar um lugar maior na nossa psique do que o mal. Ou seja, vamos nos enxergando como detentores do bem e todo o mal está lá fora, em algo ou alguém. Acaba-se criando um mecanismo de dar um lugar específico para a maldade.

Ao perceber que os dois lados habitam em nós passamos a ter a capacidade de, aos poucos, ir assumindo responsabilidade por esse mal. Pelo nosso mal. Esse funcionamento nos torna mais consciente, pois não nos identificamos com apenas um dos lados, mas sim com a tensão que se coloca entre esses opostos. Esse é um mecanismo gerador de consciência, como diz Edinger (2008): “Sempre que somos tomados por uma identificação com um dos lados dos opostos beligerantes, perdemos, nesse instante pelo menos, a possibilidade de sermos um portador de opostos. Ao invés disso nos tornamos uma das pedras moedeiras de Deus que tritura o nosso destino. Nessas horas, ainda colocamos o inimigo para fora de nós e, assim fazendo, somos apenas uma partícula.”

Claro que essa não é uma tarefa fácil, mas um divisor de águas para aqueles que tem a sede de se aprofundar. Edinger (2008), ainda coloca que ser sempre o vencedor não é bom psicologicamente, pois não experimentamos o outro lado da polaridade, o que nos deixa superficiais. Diz ele que a derrota é o portão para o inconsciente. Todas as pessoas profundas já conheceram a derrota e ela é parte fundamental dessa experiência dos opostos.

A derrota ou o lado mal está em mim, mas não sou ele. Ele é parte de um todo onde existe o bem também. Isso me faz mais completo e mais inteiro.

 

Referências:

Edinger, E. O Mistério da Coniunctio. São Paulo: Paulus, 2008.

 

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Por: Ana Terra Degelo Lorenzon

CRP 06/108084

Crianças super protegidas: pais-helicóptero e os desafios de uma educação saudável

Sempre há conflito entre as gerações. Cada uma tem uma característica especial, o que gera uma identificação comum. Geração X, Y, Z e a nova geração, que muitos andam chamando de geração Alfa – aquelas que nasceram depois de 2008, são marcadas por eventos históricos e pelo modo de criação que seus pais as educa.

Esta última é uma geração que tem pais preocupados demais e super-protetores demais. Sabem dos perigos do mundo e procuram a todo custo poupar suas crias da tristeza e do desafio que é viver.

O artigo retirado do blog “Pensar Contemporâneo” faz um recorte e discorre sobre os pais-helicóptero, que são aqueles que ficam o tempo todo sobrevoando e girando em torno de seus filhos. E nos alerta para os males que essa proteção excessiva causa nas crianças que ainda estão se desenvolvendo.

Segue o artigo na íntegra:

‘Pais-helicóptero’ são os pais que estão sempre girando em torno dos filhos. Praticamente os embrulham em plástico-bolha, criando uma corte de jovens adultos que têm dificuldade de ter um desempenho satisfatório no trabalho e em suas vidas.

‘Pais-helicóptero’ pensam que estão fazendo o melhor, mas, na verdade, estão prejudicando as chances de sucesso dos filhos. Em particular, estão arruinando as chances de que os filhos consigam um emprego e consigam mantê-lo.

‘Pais-helicóptero’ não querem que seus filhos se machuquem. Querem suavizar cada golpe e amortecer cada queda. O problema é que essas crianças superprotegidas nunca aprendem como lidar com a perda, com o fracasso ou com o desapontamento — aspectos inevitáveis da vida de todos.

A superproteção torna quase impossível que esses jovens desenvolvam a tolerância em relação à frustração. Sem esse importante atributo psicológico, os jovens entram na força de trabalho em grande desvantagem.

‘Pais-helicóptero’ fazem coisas demais pelos filhos, portanto, essas crianças crescem sem uma ética de trabalho saudável e sem habilidades básicas. Sem essa ética de trabalho e habilidades necessárias, o jovem não será capaz de realizar muitas das tarefas exigidas pelo local de trabalho.

‘Pais-helicóptero’ superprotegem seus filhos e os privam de qualquer consequência significativa por suas ações. Com isso, eles perdem a oportunidade de aprender lições de vida valiosas a partir dos erros que cometem; as lições de vida que iriam contribuir para sua inteligência emocional.

‘Pais-helicóptero’ protegem suas crianças de qualquer conflito que possam ter com seus colegas. Quando essas crianças crescem, não sabem como resolver dificuldades entre eles e um colega ou supervisor.

As pessoas resolvem problemas tentando coisas, cometendo erros, aprendendo e tentando novamente. Esse processo cria confiança, competência e autoestima. ‘Pais-helicóptero’ impedem que seus filhos desenvolvam todos esses importantes atributos que são necessários para uma carreira de sucesso.

‘Pais-helicóptero’ pensam que seus filhos devem vencer qualquer coisa. Todo mundo que participe de um evento esportivo deve ganhar um troféu. Todos devem conseguir uma nota de aprovação, mesmo que sua tarefa esteja atrasada ou malfeita.

Em um local de trabalho funcional, há apenas um vencedor de uma competição, e apenas um trabalho de alta qualidade é recompensado. Se as crianças crescem pensando que independentemente do que façam irão vencer, não perceberão que, na verdade, têm de trabalhar duro para conseguir ter sucesso.

Esses jovens mimados ficarão arrasados quando continuarem perdendo competições, se saindo mal em entrevistas ou sendo demitidos de seus empregos. Não entenderão quanto esforço é realmente necessário para ser um vencedor no mundo do trabalho.

Esses jovens carecem de competência e ação por nunca terem tido de resolver um problema ou completar um projeto sozinhos. Esperam que outros façam essas coisas para eles, assim como seus pais sempre fizeram. Em essência, não podem pensar ou agir por si mesmos.

A criação-helicóptero inculca uma série de atitudes negativas nas crianças. Elas crescem com grandes expectativas de sucesso, independentemente de quanto tempo ou energia investem, e sentem que merecem tratamento preferencial — sendo que nenhum dos dois comportamentos cai bem com seus colegas ou chefes.

Em uma entrevista de emprego, os futuros empregadores podem ser dissuadidos pela atitude excessivamente egocêntrica de um jovem ou alarmados por sua falta de habilidades básicas.

A aura de ignorância e incompetência de um jovem, combinada com expectativas de recompensas imediatas e substanciais sem relação com o desempenho, pode ser o beijo da morte em qualquer entrevista para um bom emprego.

Quando os pais decidem acompanhar seu filho de 20 e poucos anos em uma entrevista de emprego, isso mina qualquer confiança que um empregador possa ter nesse funcionário em potencial. “Por que”, os empregadores podem se perguntar, “alguém procurando emprego precisaria trazer a mamãe ou o papai na entrevista, a menos que esse jovem seja mais uma criança do que um adulto?”.

Mesmo de pequenas maneiras, os ‘pais-helicóptero’ paralisam seus filhos. A criança adulta de ‘pais-helicóptero’ vai fazer sua pausa para o café e então sair da copa sem ter limpado sua sujeira ou lavado sua xícara. Podemos imaginar como isso causará ressentimento entre seus colegas.

Esses jovens esperam que “alguém” limpe sua coisas, da mesma forma que sua sujeira foi sempre limpada quando eram crianças. Não percebem que já não há ninguém os seguindo, limpando sua sujeira, seja física, interpessoal ou profissional.

Barb Nefer, em um artigo publicado no site WebPsychology, diz que a geração do “milênio está sendo fortemente atingida pela depressão no trabalho. Um em cada cinco trabalhadores [20%] já sofreu de depressão no trabalho, comparado a 16% da Geração X [nascidos entre 1960 e final dos anos 70] e dos ‘baby boomers’ [nascidos entre 1943 e 1960]”.

Nefer destaca que, de acordo com um “‘white paper’ da Bensinger, DuPont & Associates, os ‘millennials’ têm desempenho inferior no trabalho e índices mais altos de absenteísmo, bem como mais conflitos e incidentes de advertência por escrito”, fatores que “podem afetar o desempenho no trabalho”.

De acordo com um artigo de Brooke Donatone publicado pelo Washington Post, uma nota de 2013 na revista “Journal of Child and Family Studies revelou que universitários que tiveram criação-helicóptero relataram níveis mais altos de depressão”.

O artigo do Washington Post também destaca que uma “criação intrusiva interfere no desenvolvimento da autonomia e da competência. Por isso, a criação-helicóptero leva a uma maior dependência e menor habilidade de completar tarefas sem supervisão dos pais”.

Às vezes, a melhor forma de ‘estar presente’ na vida dos filhos é não estar.
Os artigos acima deixam claro que a ‘criação-helicóptero’ está contribuindo para um crescente índice de depressão entre jovens bem como para uma incapacidade de ter um desempenho otimizado no local de trabalho.

Se você é um pai ou uma mãe que quer que seus filhos sejam bem-sucedidos na carreira quando adultos, precisa estar ciente de quaisquer tendências relacionadas à criação-helicóptero em você ou em seu parceiro.

Amar seus filhos significa guiá-los, protegê-los e apoiá-los. Não significa sufocá-los, superprotegê-los ou fazer tanto por eles que nunca aprendam a pensar por si mesmos, a lidar com desafios ou com o desapontamento e fracasso.

A coisa mais amorosa que você pode fazer como pai ou mãe é dar um passo atrás e deixar seu filho cair, se preocupar e resolver as coisas sozinho. Às vezes, a melhor forma de “estar presente” na vida de seu filho é não estar. É assim que você os capacita a desenvolver confiança, competência, autoestima e inteligência emocional.

Hoje os jovens precisam de pais que os ajudem a se tornar adultos úteis. Isso significa girar menos em torno deles e embrulhá-los menos em plástico-bolha e empoderá-los mais para que façam coisas por si mesmos, resolvam coisas por si mesmos e aprendam a lidar com as dificuldades, tudo por si mesmos.

Referências:

www.pensarcontemporaneo.com/2024-2/

Entre um clique e outro vou vivendo. Vivendo?

Como gostaríamos que todos os nossos problemas fossem resolvidos com um único clique de celular. Como se a vida fosse uma tela touchscreen e pudéssemos fazer todos os ajustes necessários virtualmente e sem se envolver. Acontece que a vida é o que está do lado de fora do quadrado iluminado, seja ele do celular, computador ou televisão.

Para suportarmos a dor de viver – e isso exige muita energia de nós mesmos – precisamos gostar de onde estamos, porque é de dentro de nós mesmos que atuamos e agimos sobre o mundo. Acho que a palavra é empatia, precisamos praticar a “auto-empatia”.

Algumas de nossas emoções são perceptíveis no corpo. Quando estamos com medo, nosso coração bate acelerado, as mãos ficam frias, os olhos esbugalhados. O corpo mostra para nós o que sentimos e identificar os sentimentos, nomeá-los e entender aquilo que o que passa por dentro chama-se medo, facilita o conhecimento que temos de nós mesmos. E quando mais nos conhecemos mais inteiros ficamos, mais simpáticos e empáticos ficamos conosco.

Para passarmos pelo processo do auto-conhecimento precisamos gastar nosso tempo. É vivendo – fora das telas – que o processo acontece. É difícil descrever ou prever o gosto da fruta antes de prová-la, podemos explicar e buscar comparações, mas é só com a fruta na boca que teremos a sensação do que ela realmente é. O mesmo acontece com a vida, é só vivendo que entendemos o que ela significa.

O tempo e a empatia andam de mãos dadas. Com a superação e o entendimento daquilo que está se passando nos tornamos empáticos, mas é um exercício que exige paciência e experiência.

A empatia comigo mesmo exerce um papel importante quando olho para minha própria vida: uma empatia posterior, que estabelece um contato emocional com o nosso passado, com aquele que realmente aconteceu. De repente, entendemos como conseguimos superar determinadas situações, determinados desafios. Ou reconhecemos que, durante muitos anos, enfrentamos corajosamente determinados medos, que tivemos a coragem de não fugir do medo. Posteriormente, reconhecemos nosso mérito, lamentamos as dificuldades, mas somos gratos por termos lidado com aquilo daquela forma (Kast, V. p.33).

Quando praticamos a auto-empatia, fazemos as pazes com nosso interior e entendemos que naquele dado momento foi tudo o que demos conta de fazer. Com o entendimento do momento e do tempo que levamos para maturar certos sentimentos e emoções, ficamos mais plenos e mais completos por compreender que é somente desse jeito e não através de ensaio ou especulação que nos tornamos nós mesmos.

Referências:
KAST, V. A alma precisa de tempo. Petrópolis: Editora Vozes, 2016.

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Por:
Ana Terra Degelo Lorenzon
Psicóloga
CRP 06/108084

Viver o luto para não viver de luto: Reflexões de uma mãe enlutada

Pensando o consultório como um recorte da vida, em que contamos diante de alguém uma crônica sobre nossa semana, uma cena do nosso dia, uma dor da nossa alma, são inúmeros os temas que permeiam nossa caminhada. Porém, um tema em especial, nos toca de um jeito também especial. O luto é um assunto amargo, mas que precisa ser falado, destilado. Ele nos mostra de modo cru o outro lado da vida, a morte. Vamos aprendendo a ver de forma diferente, pois já não somos mais os mesmos.

Renascer desse labirinto pode ser visto como uma tarefa heroica. Cris Guerra, uma publicitária que perdeu o marido antes de seu filho nascer, escreve lindamente sobre o luto de seu marido e apresenta a seu bebê o pai que ele não teve a oportunidade de conhecer. Com o coração dolorido e as lágrimas incessáveis, ela foi reaprendendo a olhar para o mundo e frisa: importante é “Viver o luto para não viver de luto”.

         Acordar. Respirar. Pensar. Existir. Não há um verbo que não doa durante o luto. Talvez dormir alivie, que é quando a dor adormece. Momento em que o medo desperta: será preciso enfrentar o dia seguinte.

            Perder quem amamos é morrer um pouco, mesmo que o coração insista em bater. O luto nos torna um lugar ruim. Queremos fugir de nós mesmos, emprestar outra vida, perder a memória, trocar de papel. Qualquer coisa que nos tire a dor com a mão, que nos salve do horror de sentir que alguém foi amputado de nós. Não há alívio imediato.

            A morte é uma verdade disfarçada de absurdo. Não se arrepende, não volta atrás, é desfecho. O verdadeiro “para sempre”. É telefone que não toca, silêncio que ensurdece, pesadelo que não acaba, falta que jamais deixará de ser.

            Enlutar-se é se mudar para uma espécie de cela blindada, da qual saímos somente para intermináveis e dolorosos banhos de sol. Uma solitária para a qual queremos voltar logo – embora triste e sombria, ela ainda é o lugar onde nos sentimos menos desconfortáveis.

            Eu me lembro de vagar pela cidade como numa cena sem áudio. Olhava ao redor e me perguntava com que direito as pessoas sorriam, se dentro de mim as luzes estavam apagadas. É assim até que a gente se acostume. A morte se repete muitas vezes. Ao acordar, está lá a morte de novo. A cada lembrança, outra morte. Até que em nós ela morra de fato — e isso demora.

            Quando meu filho nasceu foi parecido. Só que era vida. Toda hora a vida de novo. A cada instante olhar e ver: nasceu, é meu filho. Respira, mexe, chora, mama, é vida.

            Se nascimento e morte são duas verdades que crescem diante de nós, até que possamos de fato acreditar, calhou que na vida experimentei os dois de forma simultânea. Eu estava grávida quando perdi o pai do meu filho que iria nascer. Foi viuvez, mas também foi aborto: a frase cortada em pleno gerúndio. Com o coração dele que parou de bater, morreu nosso futuro.

            O que mais doía no luto era não conseguir que as pessoas sentissem a minha dor. Falei compulsivamente. Escrevi de forma obsessiva. Até que as pessoas também chorassem. E elas choraram – mais as suas dores que as minhas, é verdade, mas isso também é empatia. E quando cada momento latente de falta se transformava em um texto delicado, quando as palavras conseguiam fazer o outro vestir a minha dor, a tristeza virava alegria: que alívio me sentir compreendida. Numa espécie de alquimia incidental, transmutei dor em sorriso.

            Veja você como a vida é chegada numa ironia: o luto é praticamente um parto. É preciso reaprender a viver sem a pessoa que se foi, como quem nasce de novo – e quem permanecerá o mesmo? Viver o luto é renascer – e nascer é exercício solitário. É preciso olhar o mundo novamente e re-conhecer-se diante dele.

            Mas, como criança que cresce, o luto demanda tempo. Enquanto isso, não sai por aí despertando sorrisos. Num mundo programado para a felicidade, o luto constrange. Abre um hiato de mal estar. A morte é certeza demasiado espinhosa para que se toque nela com naturalidade.

            O momento menos solitário talvez seja a primeira semana, o primeiro mês, enquanto duram os rituais de despedida. Passam-se alguns dias e todos retomam suas vidas. Ninguém mais quer falar sobre isso. A não ser o próprio enlutado, que não quer falar de outra coisa. Agora é que a dor vai começar. E parece que não vai parar nunca. Talvez fique para sempre mesmo: a perda vai se alojando no corpo, como uma bala encapsulada, até não incomodar mais. Com paciência, o tempo muda os afetos de lugar. Passa a morar em mim quem se foi.

            E então a dor me leva a outros lugares. Abre meus olhos, me ensina a mudar de assunto. E assim, distraidamente, vai me mostrando a vida de novo – agora outra, porque sempre é tempo para mudar.

            A perda pede recolhimento como um pós-operatório, ou reincide. A ferida se abre de novo. É preciso respeitar o luto (e entregar-se a ele, sem medo) até que chegue sua hora de ir embora. Cada um descobre sua forma de colocar a dor para trabalhar em outra direção. A falta pode ser, então, bastante reveladora.

            Quando pequenos, aprendemos com os livros infantis. Depois de adultos, as pessoas que se vão passam a nos fazer pensar sobre nossas vidas. Lembram-nos a urgência de amar quem está vivo e perto. E ensinam que fazer escolhas não precisa ser tão sofrido, nem carece do peso da certeza de ser para sempre. Nenhum de nós é para sempre.

            A vida é curta, sim. Não vem com prazo de validade nem traz garantias. Cada fim de ano é oportunidade única para afetos reunidos – riso e choro, inclusive. Comemore. Mesmo com um lugar vago à mesa, a família está ali. O peru está de dar água na boca. As crianças correm lá fora. O brinde à vida não pode esperar.

 

Referências:

Viver o luto para não viver de luto

 

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Por: Ana Terra Degelo Lorenzon

CRP:06/108084

Amor: Onde há dois, não há certeza.

Em uma cultura consumista como a nossa ansiamos pelo imediatismo. Tudo é para agora e para já. Não temos mais paciência para esperar que a fruta caia do pé, que a criança demore a falar, que seu amigo não responda prontamente sua mensagem, que seja respeitado o limite de velocidade nas estradas. Ah, e queremos garantias também, “sua satisfação ou seu dinheiro de volta”, sem riscos, sem achismos, só a certeza de que no fim, seu contentamento será completo.

Inseridos nessa cultura afobada estamos nós; seres humanos que vivem o depois se esquecendo do agora. O mesmo que acontece fora, está acontecendo internamente, estamos em plena comunicação com o todo, afinal, é difícil estar no mundo sem fazer parte dele. Vivemos o futuro: crises de ansiedade estão mais comuns do que nunca.

Ficamos ansiosos, preocupados e ocupados o tempo todo. Não sei o que quero, mas quero hoje. Essa linguagem fica desorganizada e fora de contexto quando falamos de nós, dos nossos sentimentos e de como digerimos nossas emoções e nossas relações. A exatidão dos feitos não vale e não tem a mesma forma, nem a mesma precisão das percepções de alma.

Bauman (2004), fazendo um recorte do tempo atual e das relações amorosas, diz:

A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a ‘experiência amorosa’ à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforços.

O autor fala da dificuldade em se relacionar nos tempos modernos, o encontro amoroso não acontece seguindo a lógica atual. “Onde há dois não há certeza”, ele diz. Essa falta de certeza pode enlouquecer alguns, já que não podemos esquecer que o amor tem algo de sua origem no impulso antropofágico, o desejo de incorporar, possuir, grudar e ser dono do outro é primitivo e dá aos amantes a falsa sensação de que se eu me fundir ao outro, eu elimino a angústia da separação/insegurança.

Na parceria conjugal o outro é um segundo plenamente diferente e independente de nós. Com ele vêm novos questionamentos, nova história de vida, novos padrões e novos parâmetros. Recebemos um convite de adoração insegura do outro, este é soberano e não uma extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim. A incerteza precisa ser reconhecida e aceita. Ainda segundo Bauman, “Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro”.

E o quanto estamos prontos para isso? O quanto é difícil abrir mão desse conforto (ainda que por vezes ilusório) de estar sempre no poder?

A relação amorosa é algo tão especial que além de externamente nos perceber em parceria, nos coloca em contato com um mundo bem diferente daquele que citamos no começo desde escrito, um mundo mais humano, mais falível, mais natural.

(…) Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Significa concordar com a indefinibilidade do futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de seus feitos e a infinibilidade de seus objetivos e consequências.

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, Fernando Pessoa consegue traduzir muito bem a finitude e a exatidão que a vida e também os encontros amorosos não nos traz. Talvez seja essa a procura de deveríamos nos debruçar, quando eu me liberto da procura lógica ou veloz do viver é que eu consigo estar em harmonia e em paz comigo mesmo.

Referências:

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.


Autora:

Ana Terra Degelo Lorenzon

CRP 06/108084

Será que meu filho precisa de psicoterapia? Psicoterapia com crianças e adolescentes.

Por: Saulo Brasileiro – CRP 06/133657

Uma pergunta que se passa na cabeça de muitos pais e mães ao longo da criação de seus filhos, é se estes precisam de psicoterapia. Existe psicoterapia para todas as idades, desde bebês recém-nascidos (junto com os pais) e crianças pequenas, até para idosos. A psicoterapia além de tratar problemas já existentes, ajuda a prevenir problemas para uma vida adulta mais saudável. Antes de responder a pergunta(será que meu filho precisa de psicoterapia?), é interessante rever quais são os objetivos da psicoterapia e como a psicoterapia  com crianças e adolescentes funciona.

A psicoterapia tem como objetivo a mudança de alguns conflitos, atitudes, pensamentos e sentimentos que geram sofrimento naquele que a procura. O meio que se atinge esse objetivo depende de cada psicólogo(a) e de cada paciente.

No caso da psicoterapia infantil, provavelmente a maioria dos psicólogos(as) trabalhem junto às crianças com brinquedos, jogos, desenhos e outras atividades lúdicas, além da fala. Compreendemos que a melhor forma que a criança pode expressar os seus sentimentos e pensamentos é através do brincar. Com adolescentes, as ferramentas lúdicas podem fazer-se presente, porém a fala se torna mais presente, e de acordo com a personalidade e idade do adolescente, o processo se aproxima mais da psicoterapia com adultos. Entrevistas iniciais com os pais, ou mesmo durante o tratamento também podem ocorrer. Importante é a compreensão de que os pais também participam da psicoterapia dos filhos, algumas vezes recebendo orientações do profissional que acompanha o filho.

Então voltamos ao questionamento inicial: Como saber se o seu filho precisa de psicoterapia?

  1. a) Ao observar o comportamento dos filhos, os pais podem perceber alguns como sendo “estranho”, sem entender se são comportamentos normais da fase de desenvolvimento. Para compreender se o que se passa com o filho é normal ou não, existe o serviço de orientação para pais.
  1. b) Estes comportamentos, estão atrapalhando as relações sociais com os colegas e com a família? Estão atrapalhando o desempenho escolar? Se sim, provavelmente é indicado uma avaliação com psicólogo(a).
  1. c) Seu filho chora muito? Não come? Tem comportamentos agressivos ou autodestrutivos? Vivenciou uma situação traumática? Perdeu uma pessoa muito próxima? Se sim, provavelmente seu filho precisa de psicoterapia.
  1. d) Seu filho tem diagnósticos psiquiátricos, como Transtornos do espectro autista (TEA), Transtorno de deficit de atenção com hiperatividade (TDAH), deficiência intelectual, depressão, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade e etc? Neste caso provavelmente seu filho precisa de psicoterapia.

Lembrando que ninguém precisa ter um diagnóstico ou doença mental para ir a um psicólogo. Apenas o fato de querer levar uma vida mais leve, diminuir sofrimento, buscar autoconhecimento e realização pessoal, já é motivo para procurar um psicólogo(a), isso também vale para crianças e adolescentes. Levar um filho a psicoterapia não é motivo de vergonha ou medo. Quem busca psicoterapia é forte para perceber a necessidade de mudar e crescer. Os pais que buscam orientação com psicólogo ou psicoterapia para os filhos, mostram que preocupam-se com o bem-estar e saúde mental dos filhos.

Receita de Ano Novo

É o começo do ano que normalmente esperamos para fazermos as promessas, as reflexões e os votos para novas mudanças e novos desafios. “Esse ano eu começo a academia!”, “esse ano eu faço regime!”, “esse eu vou ser mais paciente!”. As esperanças se renovam e o novo ganha um brilho especial.

Já parou para pensar em quanta coisa deixamos de fazer ou quantas vontades tolhemos esperando o momento ideal? Ah, quanto tempo desperdiçado! As pequenas sementes do vir-a-ser quem germina somos nós, e a qualquer época. Elas moram dentro de nós e apenas esperam nosso lavrador interno jogá-las em terreno fértil.

Quem faz o ano ser realmente novo é você. Os réveillons sempre acontecerão, mas somos nós mesmos que tomamos nossa vida na mão e a guiamos para lá ou para cá. São as suas resoluções que fazem aquele ser o início de uma etapa novinha em folha ou então a continuação da caminhada, pelo mesmo terreno ou por outro. É sua escolha.

Drummond, através de sua poesia, cadencia os versos para explicar para o coração aquilo que venho tentando dizer:

Receita de Ano Novo

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ver,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra
birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta ou recebe mensagens? passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Feliz 2017!

 

Por:

Ana Terra Degelo Lorenzon

CRP 06/108084

Como compreender melhor os sonhos…

Para Jung (1994), a consciência nasce a partir do inconsciente e se desenvolve num intercâmbio constante, estabelecendo também uma função compensatória.

Isso significa que para o equilíbrio da psique como um todo é fundamental que se busque o diálogo entre seus conteúdos conscientes e inconscientes uma vez que, o contato com esse material nos torna cada vez mais conhecedores de nós mesmos, de nossas forças e nossas fraquezas.

Quando dormimos nos desligamos de um mundo consciente de impressões, sensações e julgamentos feitos ativamente pelo nosso ego, quando sonhamos, nos abandonamos ao mundo do inconsciente onde o ego em posição menos ativa, dá espaço a outros conteúdos e imagens que também fazem parte de nós e querem ser vistos.

Não faz muito tempo falamos de sonhos e de como eles são entendidos como a expressão da porção inconsciente da nossa psique. Para Von Franz (1992), eles seriam como a natureza em nós. Eles nada disfarçam, apenas falam numa linguagem simbólica, cuja compreensão é difícil para nossa mente racional, numa primeira leitura.

O fato de muitas vezes não compreendermos um sonho logicamente, não significa que ele não tenha em si, uma lógica. Quando começamos a decifrar os símbolos e as imagens contidos nos sonhos, por meio de associações do sonhador, percebemos como os símbolos são perfeitamente coerentes dentro da sequência de seu significado interno. É apenas uma lógica diferente daquela da consciência.

Tomar contato e compreender essa língua simbólica é como compreender uma segunda língua, que diz muito sobre nós mesmos. Essas a seguir, são dicas para a melhor Compreensão dos sonhos lembrando que essa prática é sempre um exercício, uma ferramenta para a reflexão e autoconhecimento, nunca uma sentença de significado.

Dicas para compreender melhor os sonhos

Anote os fragmentos dos seus sonhos quando sair da cama. Tenha sempre na mesa de cabeceira uma folha de papel e uma caneta. Personagens, paisagens, formas dos objetos, cores, etc. Escreva de um modo sistemático tudo o que lhe ocorrer, mesmo que lhe pareça desprovido de sentido.

2 Nunca se esqueça de que algumas imagens são mais acessíveis do que outras. Se o conteúdo de um sonho lhe parecer demasiado hermético, passe para o sonho seguinte.

3 Deixe-se guiar pela sua intuição, mas evite as interpretações demasiado rígidas.

4 Esforce-se por descrever o ambiente. Sentiu uma sensação de alegria, de medo? Relacione essas emoções com a sua vida quotidiana, as suas preocupações, as suas expectativas, a fim de descobrir a ligação entre a vida diurna e noturna.

 

Por:

Ana Carolina de Pinho Manzi

Psicóloga

CRP 06/91189

Vamos falar sobre sonhos?

Para falar de sonhos precisamos entender, grosso modo, como se estrutura e como se dão algumas coisas.

Segundo C.G. Jung nossa mente é formada por aspectos conscientes e inconscientes.

O inconsciente corresponde para ele, a mais vasta parte da psique onde repousam nossos mais importantes conteúdos, na medida em que vivemos a realidade de nossas vidas e nos relacionamos com o mundo, pessoas e imagens. Trazemos com intermédio do nosso ego esses conteúdos para a consciência e podemos então explica-los como aquilo que identificamos como conceitos, afetos, sentimentos ou pensamentos, dentro de nosso sistema racional.

Se o inconsciente fosse o fundo do mar, o ego seria a rede, e os conteúdos de que tomamos consciência, o que pescamos com auxílio da rede e trazemos para a superfície e só depois com a luz do sol, definimos se se trata de um peixe, um marisco ou uma alga de acordo com o nosso conhecimento.

Os nossos sonhos são uma atividade natural do nosso inconsciente, é como a oportunidade momentânea de observar “os seres que habitam os mares do inconsciente” em seu habitat natural, mais distante das classificações racionais que nós damos a aquilo que pescamos em nossa rede e trazemos para a luz em nosso consciente.

Na maioria das vezes, se nos lembramos do sonho, no os entendemos ou procuramos dar as imagens de que nos lembramos, uma sequência racional que nos satisfaça, no entanto embora nunca seja claro, a realidade simbólica do inconsciente tem algo a comunicar.

Uma imagem ou palavra é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto ou imediato. Essa palavra ou imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo, que nunca é precisamente definido ou inteiramente explicado. Quando a mente explora um símbolo conduzida a ideias que estão pelo menos de início, fora do alcance da nossa razão.

Nesse sentido, os sonhos não podem ser entendidos apenas como a “realização de desejos reprimidos” e sim como a possibilidade de expressão de um vasto mundo simbólico onde pode-se observar recordações, fantasias, afetos, experiências, crenças, (também) desejos e outras coisas.

Os sonhos podem ser entendidos como expressões importantes dentro do dialogo entre aspectos conscientes e inconscientes que mantem em movimento nossa vida psíquica.  É desse dialogo que resultam os símbolos que trazem consigo as ideias e as energias de que precisamos para reorganizar aspectos em desequilíbrio.

Sempre que necessidades especificas de cada um de nós são negligenciadas, surgem os sonhos que organizam ou nos dão pistas para organizar nosso mundo interno pois a psique funciona como um sistema auto-regulador.

Por esse motivo, depois de uma noite de sono muita coisa pode ser diferente: o problema do dia anterior já não parece tão grande, o que não tinha jeito achou solução e o que você ia fazer de um jeito, acaba fazendo de outro!

Um sonho não é como um filme, um texto ou uma peça de teatro, o sonho é uma coisa viva: é como uma janela aberta para outra parte de nós. Uma parte que as vezes traz ou pode trazer contribuições importantes para quem somos conscientemente.

 

Por:

Ana Carolina de Pinho Manzi

Psicóloga

CRP 06/91189